
MIGUEL GONTIJO pertence a mais
nobre das estirpes artísticas, a dos
satíricos. O seu trabalho organiza figura
e situações onde está presente
o humor delirante e crítico e onde o
artista apresenta uma situação
do mundo.
A satírica, neste caso,
configura-se através da síntese,
realizada pelo artista, entre o mundo imaginário
e o mundo concreto. As figuras ameaçadoras
do inconsciente são transpostas metaforicamente
para uma ambiência social.
A força desta sátira
reside justamente nesta ligação
entre o delírio e o real social. E reside,
igualmente, na sutileza do artista que deixa
as suas cenas e figuras distanciadas de um tempo-espaço
determinado. São cenas, de alguma maneira
pode ser dito assim, atemporais.
Esta atemporalidade não
retira do trabalho o seu engajamento humano
e social, mas o deixa em disponibilidade. Podemos
aplicá-lo de acordo com a nossa conveniência.
Como se fosse uma situação protótipa.
Ou uma situação arquetípica.
Desta maneira, através
desta descrição, podemos encontrar
os elementos chaves do fabulário criado
por Gontijo. A liberação de figuras
do inconsciente, em primeiro lugar. O equacionamento
desta figuras como habitantes de nosso mundo,
em segundo lugar. Depois, o não enquadramento
em uma situação determinada; a
opção pela atemporalidade; a oferta
das cenas e figuras para utilização
permanente, isto é, a sua auto-definição
como símbolo ou arquétipo; o caráter
crítico, conseqüência natural
da transposição das situações
para o concreto social, como uma figura mais
total, o sistema de Gontijo pode ser entendido
como o de uma metáfora crítica.
O artista, como método,
elabora as suas figuras com base num desenho
realista, ele detalha, procura a proporção
justa, pensa nos volumes e na composição.
Na verdade, esta é uma necessidade de
seu trabalho, já que o artista cria metáforas,
ele necessita de um desenho realista, sob pena
de perder-se no jogo livre de fantasias, seria
redundante retratar um universo fantasioso com
base num desenho fantasioso.
Este mesmo problema foi enfrentado
pelo surrealismo e pela pintura metafísica.
Ambas, por retratarem um mundo imaginário
ou de inconsciente, tiveram que alicerçar-se
numa técnica de caráter acadêmico.
Mas a tanto não chega Gontijo. Ele opta
pelo desenho de natureza e tratamento realístico
e, dentro deste processo, ele aceita a criação
associativa. Ou seja, uma figura puxa outra
figura que puxa outra figura, como, na área
verbal, uma palavra puxa outra palavra que puxa
outra palavra. As crianças do mundo inteiro
conhecem esta brincadeira, mas este método
do artista não é arbitrário,
mas uma condição interna do seu
trabalho. Ele necessita contrapor um desenho
realista ao universo imaginário onde
circula, e o processo associativo é adotado
por ser uma maneira, dentro deste tratamento
realístico, de permanecer com o fluxo
contínuo de imagens e criatividade.
O artista coloca-se como um dos
bons artista que o país tem revelado,
nos últimos anos. E, curiosamente, a
melhor tendência destes talentos tem sido,
justamente, a crítica social e existencial.
Categoria onde se insere Gontijo que, por sua
vez, é capaz de se acrescentar aos melhores
de sua geração e aumentar a já
grande contribuição mineira à
arte brasileira.
Jacob Klintowitz
Crítico de Arte
São Paulo, abril de 1981




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