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INAUGURA A NOVA PAULO DARZÉ GALERIA DE
ARTE
A Paulo Darzé Galeria de Arte inaugura o seu novo endereço,
Rua Dr. Chrysippo de Aguiar 8, Corredor da Vitória,
com a exposição de Mario Cravo Neto,
O tigre do Dahomey_A serpente de Whydah, apresentando
59 fotografias, acompanhado do lançamento
de um livro com o mesmo título. O trabalho
traz como epígrafe a frase de Sören
Kierkegaard: “a criação de
um mundo onírico, utópico, delirante
e potente que o universo da arte propõe,
enfeitiça positivamente o homem a si mesmo,
desde que o impossível se atinge pelo absurdo
da esperança”, acompanhado de uma
dedicatória para o seu pai, o escultor
Mario Cravo Júnior, onde além de
declarar o amor e afinidades, escreve: “os
tigres estão perdendo o seu espaço
e o mundo perdendo seus tigres”, para concluir:
“um momento de beleza é um momento
de encontro e os reencontros constroem sentido
de nossa vida, nos falam de compromissos existenciais
e perenes”. A mostra de Mario Cravo Neto,
O tigre do Dahomey_A serpente de Whydah, permanece
na Paulo Darzé Galeria de Arte até
o dia 3 de janeiro de 2005, aberta a visitação,
das 9 às 19 horas.
TEXTOS DA MOSTRA
Para a apresentação da mostra,
num livro com as fotos da exposição,
o poeta e Otun Obá Até do Axé
Opô Afonjá Ildásio Tavares
afirma no texto O mágico e a magia, “Conheço
Mario Cravo Neto há muito tempo e, no correr
de nossa amizade, aprendi a admirar o mundo fértil
de sua criação. Sua inquietude inventiva
sempre o conduziu a buscar novos caminhos. Ele
detesta se repetir. Não importa o sucesso
que venha a fazer, Mariozinho está sempre
saltando de uma linguagem para outra e, o que
é melhor, de um pensamento para outro,
iluminando sua realidade cotidiana com luzes diferentes,
sem manter uma relação servil com
a realidade – ele está sempre tentando
reinterpretá-la com sua câmara, para
revelar novas dimensões da vida que nunca
conseguimos ver com a ótica corriqueira.
Seu olho rápido, e invasivo, está
sempre tentando mergulhar no âmago dos objetos
que ele seleciona para fotografar ou, antes, que
ele engendra e fotografa”.
“Quando Mariozinho está lidando
com a realidade cotidiana, pode-se facilmente
notar a intenção de transgredir
o código convencional, o novo ângulo
ou ângulos que ele focaliza para capturar
o fugaz, no processo de congelar o tempo que é
a fotografia. É quando o mágico
transforma a realidade em magia, no que podemos
chamar de procedimento alquímico, metamorfose
que ocorre claramente quando o alvo do fotógrafo
é o mundo móvel do Candomblé.
Aí, Mariozinho, não intenta capturar
apenas uma realidade transitória. Mais
que isso, ele ambiciona penetrar no mistério
imponderável que jaz muito além
da superfície de meras imagens enigmáticas”.
“As pessoas e os objetos do Candomblé
têm em si, naturalmente, um significante
visual e um significado religioso, compartilhado
pelos iniciados. Mariozinho não só
investe por um ângulo profundo e denso,
como procede a uma leitura pessoal do mistério
permanente de uma religião esotérica,
e pode fazer isso melhor do que ninguém
porque é um iniciado, uma pessoa de dentro.
Seu olho direcionou-se para ver bem e está
sendo treinado para cada vez ver melhor. O que
importa não é a qualidade técnica
da câmara ou do filme, nem mesmo a perícia
do fotógrafo. O que importa é o
adestramento da percepção, o olho
aguçado que, ao captar o exterior, pode
fazer uma leitura profunda do tema, pode dar uma
interpretação tanto mais verdadeira
quanto menos lógica, enxergando na aparência
efêmera dos rituais uma permanência
intrínseca que a magia da fotografia revela”.
“Mais vívida se faz a leitura quando
Mariozinho elabora um sistema de comparação,
buscando num ponto de confluência a resolução
do enigma. Ele põe lado a lado amostras
do culto africano e elementos europeus que, em
vez de contradizer a tendência africana,
nela se integram e ajudam a explicar a alquimia
negra, porque no mais profundo do fundo eles expressam
o mesmo processo. Este é importante traço
no discurso de Mariozinho, mirar as semelhanças,
os pontos de contato e não configurar um
apartheid artístico. Ele elabora sua linguagem
com plena consciência de que nos subjazem,
a todos os seres humanos, os mesmos arquétipos.
Basicamente, a diferença está na
linguagem: a arte é única, mas se
expressa por meio de mecanismos e vocabulários
distintos. Quando Mario Cravo Neto mergulha sob
a superfície, está em busca de uma
arte mais durável e significativa”.
Já Mario Cravo Júnior, escultor,
um dos fundadores da arte moderna da Bahia, e
pai do artista, afirma em seu texto, sob o título
A Bahia Negra – O Paraíso Sempre
Desejado: “Bárbaros delicados, sádicos
e ternos. Temos luz e trevas nas nossas almas,
temos a banda d’água no nosso corpo
e alma. Somos tessálicos e telúricos,
metade peixe e metade ave. Em momentos levantados
pelo devaneio da luxúria, noutros nos afogamos
de piedade e complacência. Temos cabeça
de velho ancestral e olhos de criança intergaláctica.
Aqui ruminamos uma culinária impossível,
temos a sofreguidão e o entusiasmo erótico
duma glutonice desenfreada”.
“Mario Cravo Neto tem no olho o filtro
de Pigmalião, a lupa de Galileu e o coração
de Francisco – é o santo a quem me
refiro, o Francisco de Assis. No variado e mutável
das formas, o artista opta pelo escuro, pelo negro,
pelas sombras; na contundente e maravilhosa luminosidade
vertical, ele escolhe meandros da noite, farrapos
de madrugada, nostalgias de entardecer. Por instantes,
chego a sentir que as fotografias de Mario Cravo
Neto, de uma maneira gentil, nos carrega ao universo
primevo do homem, momentos antes da descoberta
do estigma do pecado original. Num caleidoscópio
supra-racial, a Bahia transpira o mistério
das culturas, a sensualidade e o delírio
de todos os povos, a bacia onde a África
lava suas vestes”.
Paulo Darzé Galeria
R . Chrysippo Aguiar, 8 - Corredos da Vitória
- 40080 - 310
Salvador - Bahia - Tel. 71 - 3371519 / 2670930
paulodarze@terra.com.br
www.paulodarzegaleria.com.br
26/11/2004
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