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Nuno Ramos faz chover no CCBB
Maria Hirszman
Mostra inaugurada hoje simula uma forte chuva
no interior do prédio da instituição,
no centro de São Paulo

Monalisa Lins/AE
Sistema de canaletas forja chuva sobre o hall
central do CCBB
São Paulo - Está chovendo dentro
do Centro Cultural Banco do Brasil. O autor dessa
proeza não foi o tempo ou o desgaste material,
mas um dos mais inventivos artistas contemporâneos
do País. Convidado para realizar uma grande
exposição nesse problemático
espaço, tomado por um grande vão
central e salas de exposição um
tanto tímidas, Nuno Ramos optou por um
trabalho de forte impacto visual e sonoro, que
provoca não apenas o público cativo
das artes visuais mas qualquer pessoa que visitar
o centro nos próximos dois meses. Por meio
de um sofisticado sistema de canaletas, uma forte
"chuva" cai sobre o hall central do
espaço, transformado numa pequena piscina
impermeabilizada. Saindo do meio da água
e instalados no teto, alguns alto-falantes berram,
por sobre o barulho hipnótico da chuva,
um poema de Carlos Drummond de Andrade, recitado
por um coro masculino.
"Sobre o tempo, sobre a taipa, a chuva escorre/As
paredes que viram morrer os homens/Que viram fugir
o ouro/Que viram finar-se o reino/Que viram, reviram,
viram/Já não vêem/Também
morrem", dizem eles, como se, de repente,
substituíssem o luxo do prédio art
decó pela paisagem desolada descrita em
Morte das Casas de Ouro Preto. Logo de início,
o visitante é forçado a se deparar
com uma certa melancolia, com esse caráter
um tanto noturno, mesmo que belo, da obra de Ramos.
A escolha de Drummond - cuja poesia também
dá título à mostra -, não
é apenas fruto de uma gigantesca admiração.
É também indício de um certo
fascínio do artista pelo inacabado, pelo
seu desejo de captar as coisas antes que elas
se concretizem, de corporificar o intangível,
como conseguiria o poeta mineiro.
A sensação de abandono, de uma
certa impotência diante desse descaso, da
violência que domina as relações
no País, vai crescendo ao longo da exposição
(composta por quatro grandes núcleos de
trabalho e dois filmes), mas sempre de maneira
contida, de enunciados poéticos e sutis,
nada explícitos. Respirar vai tornando-se
um pouco mais impossível a cada momento.
Não à toa Ramos inclui entre suas
referências figuras como Nelson Cavaquinho
e Oswaldo Goeldi. "Eles fazem parte dessa
família mais trágica, menos reversível,
menos tropical, mais noturna da arte brasileira",
resume ele, dizendo-se com "pouca disponibilidade
para as coisas pequenas, alegres, da sociedade
de consumo".
Para realizar essa exposição, na
qual ele vem trabalhando desde janeiro, foram
necessárias mais de 30 pessoas e um orçamento
que Nuno compara ao de um modesto longa-metragem.
Além da impressionante infra-estrutura
necessária, foram feitas até mudanças
estruturais no prédio, como a substituição
de sólidas paredes por magníficas
janelas na sala que abriga as peças da
série Casco (um filme com o mesmo título,
de autoria de Ramos, Eduardo Climachauska e Gustavo
Moura). Por ocasião da exposição,
cuja inauguração coincide com o
3.º aniversário do CCBB em São
Paulo, também está editado um alentado
catálogo, de 140 páginas, com textos
de Paulo Venâncio Filho e Vilma Areas.
Morte das Casas, de Nuno Ramos. De terça
a domingo, das 10 às 21 horas. CCBB. Rua
Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651.
Até 20/6. Abertura hoje, às 11 horas.
Jornal Estadão
22/04/2004
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