|
O museu brasileiro que conquistou Veneza

Lisboa - Um projeto brasileiro deu ao arquiteto português
Álvaro Siza Vieira um Leão de Ouro na arquitetura.
A nova sede da Fundação Iberê Camargo, em Porto
Alegre, conquistou o prêmio principal, o de melhor projeto,
na Bienal de Arquitetura de Veneza. "Para mim, foi muito agradável
e também vai ajudar no sentido do reconhecimento da fundação.
Não sei se na Europa têm conhecimento dela. Fiquei
satisfeito pessoalmente e também pela divulgação
da pintura do Iberê Camargo. Espero que isso estimule muitas
viagens dos europeus para Porto Alegre, embora seja tão longe",
comentou Siza Vieira.
O Leão de Ouro junta-se a mais de uma dezena de prêmios
que o arquiteto, de 69 anos, já recebeu, entre os quais o
Prêmio Pritzker, da Fundação Hyatt, de Chicago,
o Prêmio Prince of Wales, da Universidade de Harvard, e o
Alvar Aalto, considerado um "Nobel" da arquitetura. Na
quarta-feira, ele recebeu mais um prêmio, da prefeitura de
Madri.
O projeto, no Brasil, surgiu de um convite para participar do concurso
promovido pela Fundação Iberê Camargo, criada
há sete anos para divulgar a obra do pintor: "O programa
do concurso era muito estimulante e o local também, de maneira
que fiz sem pensar se ia ganhar ou perder. Fiz porque gostei de
fazer o projeto", conta Siza Vieira. Até hoje, a maior
parte do trabalho do arquiteto está concentrada na Europa.
Ele comentou o resultado do concurso: "Foi uma grande alegria.
Não digo que tenha sido a realização de um
sonho porque eu nem sonhava com isso. Mas é uma coisa que
me enche de orgulho e entusiasmo, pela ligação histórica
que há entre Portugal e Brasil e também porque o meu
pai nasceu no Brasil, em Belém do Pará. É um
país de uma beleza extraordinária e variada, com uma
sensação de espaço e extensão que é
muito patente no terreno que foi escolhido para a fundação,
que tem à frente um rio que parece um lago."
Com 8.500 metros quadrados, numa região em frente do Rio
Guaíba, o projeto não é diretamente relacionado
com o estilo da pintura de Iberê Camargo: "A qualidade,
o frescor e o dramatismo da pintura de Iberê Camargo são
uma fonte inspiradora para quem faça um edifício para
essa coleção. Um museu tem de ser organizado para
criar as melhores condições possíveis para
uma exposição. O fundamental é a criação
de espaços onde se possa, com grande flexibilidade, organizar
exposições variadas."
Siza Vieira justificou a opção pelo concreto, como
material principal da obra, como um diálogo com a arquitetura
moderna brasileira: "É um material que permite grande
liberdade na organização dos volumes e das formas.
Além disso, eu sei que, no Brasil, há uma grande tradição
de utilização do concreto. A arquitetura moderna brasileira
é de uma tal riqueza e de uma tal variedade, e vai aos limites
na utilização desse material, que não faria
sentido usar outro."
A obra deve começar a tomar forma já no mês
que vem, com prazo de conclusão até 2004. E há,
ainda, a promessa de se criar, na região em que for construído,
um novo pólo cultural para Porto Alegre: "Naturalmente
que uma instituição como a Fundação
Iberê Camargo vai ter um papel na vida cultural da cidade.
Além da exposição da obra de Iberê, vai
ter atividades culturais, ateliês, conferências, exposições
temporárias, muito importantes para a cidade", diz Siza
Vieira.
Além do projeto do edifício, o arquiteto também
deve desenhar o mobiliário da fundação, dando
uma coerência ao conjunto, como é comum nos seus projetos:
"Não é um assunto que já tenha sido discutido
com a fundação, mas o fundamental do mobiliário
julgo que eu vou fazer. Na zona de exposições, o mobiliário
é pouco: são fundamentalmente bancos para contemplação
e descanso. Depois há o mobiliário do auditório".
Reconhecimento - Apesar de ter trabalhado durante mais de 20 anos,
apenas em Portugal, o reconhecimento pelo seu trabalho só
ocorreu a partir da década de 80, quando começou a
ganhar concursos e prêmios no exterior. "É o habitual.
De certa maneira, também aconteceu com Niemeyer. Julgo que
isso começou a partir da exposição de 37, em
Nova York, do ponto de vista da grande divulgação
da sua obra e do seu talento. O Alvar Aalto tinha um barco para
andar lá nos lagos da Finlândia, batizado com o nome
´Ninguém é perfeito na sua terra´, em
latim."
Ele acredita que, nos últimos anos, é mais fácil
que a qualidade arquitetônica seja reconhecida, mesmo fora
dos principais centros de cultura, como Nova York, Londres e Paris:
"Hoje, as relações são muito mais variadas
e abertas e o que se faz em qualquer país tem suficiente
divulgação. Tudo o que tem alguma qualidade já
se ressalta universalmente."
Uma das características do seu trabalho é que ele
não considera um projeto como acabado. Vai sempre modificando
e redesenhando. Entre as obras mais emblemáticas criadas
por Siza Vieira está a igreja de Marco de Canavezes, considerada
uma obra-prima da arquitetura religiosa, que recebeu o prêmio
Europeu de Arquitetura, deixando para trás o Museu Guggenheim,
de Bilbao, na Espanha - obra do arquiteto americano Frank Gehry.
Atualmente, entre os vários projetos que desenvolve, destaca-se
a remodelação da área mais nobre de Madri,
que inclui a região dos museus do Prado, Rainha Sofia, Thyssen-Bornemisa,
a estação de trem de Atocha e a praça Colón.
Sobre a arquitetura brasileira, ele diz que foi influenciado por
Oscar Niemeyer e segue o que está sendo produzido na área
no Brasil: "A arquitetura brasileira segue a natural evolução,
alicerçada no período glorioso dos anos 40 e 50, e
tem grandes seguidores dessa geração. E tem, felizmente,
o Oscar Niemeyer ainda em atividade."
Fonte: Jornal Estadão
24/09/2002
|