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Morre em Portugal o pintor Michael Barrett
Jorge Jomalveira


O Palhaço (2000) - Serigrafia - 50 x 70 cm
Centro Português de Serigrafia

Breve Biografia

Michael Barret (Paris, 1925 - Leiria 2004) ainda jovem fixa-se em Cascais. É diplomado pela E.S.B.A.L. e expõe desde 1968. Ganha o 1º Prémio Nacional de Pintura, tema livre, do Salão de Outono do C.E. (Prémio Teodoro Santos) em 1985, com uma obra pertencente à série 'Fernando Pessoa'.


Fonte: Galeria Pedra do Guilhim.

Faleceu no último dia 5 de junho de 2004 o grande artista Michael Barret, amigo e camarada, com quem tive o privilégio de privar um convício de 18 anos. A arte portuguesa ficou mais pobre sem o nosso querido Barret.

Há uma passagem interessante em nossa convivência: em 1988, quando de sua exposição na Galeria Século XVII. Em Leiria, convidei-o a saborear uma peixada à brasileira. Enquanto o peixe estava assanto, houve uma interrupção de gás e o peixe ficou aguardando enquanto eu fosse à cidade, botijão às costas, fazer a renovação. Barret se divertiu muito com a situação e disse nunca ter vivido uma experiência como essa.

Assim era Barrett. Para ele, tudo era festa, inclusive sua arte, que nós, aqui em Portugal sempre admiramos. No entanto, há quem torça o nariz para o seu trabalho porque, fugindo dos padrões, buscando uma expressão própria peculiar, não chegava a atingir o grande público.

Michael Barret era um artista puro. Não usava de sofismas e cabotinismos em sua obra. Com paleta própria inconfundível, era direto e objetivo, encarava o mundo de frente, como se destaca em retratos como o que fez do poeta Fernando Pessoa e em outros retratos personalíssimos.

Sendo um humanista convicto, não se esquivou da vida e falou, alto e a bom som, sempre que se tratava de defender seus pontos de vista. Sabia como desenvolver um tema a ponto de causar polêmica, inclusive com seus amigos e admiradores.

Havia uma certa sensação de cumplicidade entre nós, seus amigos, na admiração de sua obra e nos personagens vivos que ele conseguia criar no desenvolvimento de qualquer tema. Genial e sensitivo, aprendi com ele não apenas arte mas sobretudo a encarar o ser humano como "gente" e não como "peça".

Portugal perdeu um artista mas, sobretudo, perdeu um homem interessado no universo. Presente está comigo, pois tenho em minha coleção uma sua paleta, que me foi oferecida quando de sua última exposição na Galeria Século XVII, paleta que está, sem sombra de dúvida, coberta de energias positivas.

Conviver com ele foi um privilégio. Pluridimensional, poliforme, polivalente, assim era sua pintura, repleta de forte cariz social, voltada para o expressionismo, tão bem dominado por ele.

Na linha de Matisse, Barrett construia suas personagens com profunda dose de lirismo dramático, só possível a quem sabia transitar pela arte moderna. Dentre os portugueses, foi o artista que mais fabricou sonhos, transformados em arte, como se observa, por exemplo, na série "Retratos Polêmicos de Fernando Pessoa".

10/05/2004