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Restauradas obras em cedro de Aleijadinho
Eduardo Kattah
As 64 imagens em cedro esculpidas há
mais de dois séculos passaram um ano sendo
restauradas e voltam hoje à exposição
pública

Pedro Motta/AE
Equipe precisou combater a infestação
de cupins e recuperar as pinturas danificadas
e as fraturas de algums imagens
Belo Horizonte - Parte daquela que é considerada
a mais significativa e monumental obra de Antônio
Francisco Lisboa, o Aleijadinho, será reaberta
hoje ao público, após ser submetida
a um criterioso processo de restauração.
Durante pouco mais de um ano, uma equipe de profissionais
trabalhou na recuperação das 64
imagens em cedro esculpidas há mais de
dois séculos por Aleijadinho em sua oficina,
que compõem os Passos da Paixão
de Cristo, no Santuário de Bom Jesus do
Matosinhos, em Congonhas (MG).
A última grande reforma do conjunto -
distribuído em seis capelas e que representa
as estações da Via-Crúcis
- foi feita há quase 50 anos. Desde então,
as peças em tamanho natural sofreram a
ação do tempo e apresentavam problemas
por conta de algumas intervenções
"inadequadas", segundo a coordenadora
da restauração do acervo escultórico,
Lucienne Maria de Almeida Elias. "Encontramos
uma miscelânea de problemas", recorda
a restauradora, listando os principais desafios
enfrentados por sua equipe, como combater a infestação
de cupins e recuperar as pinturas danificadas
e as fraturas que surgiram na madeira de algumas
imagens.
Todas as peças foram esculpidas entre
os anos de 1796 a 1799, quando o mestre do barroco
brasileiro deu um aspecto mais expressionista
às suas obras. Aleijadinho já tinha
na época uma idade avançada. "É
incrível ver que numa época daquela,
uma pessoa, no auge de sua doença, construiu
um acervo tão magnífico", surpreende-se
a restauradora, de 36 anos. Ela chama a atenção
para os semblantes dos Cristos, que retratam a
paixão e morte na cruz.
O trabalho em Congonhas é reconhecido
por especialistas como a obra-prima do escultor
barroco, que depois de talhar as peças
em madeira, esculpiu (de 1800 a 1805) os 12 profetas
em pedra-sabão, colocados no adro da igreja.
As três primeiras capelas (da Ceia, do Horto
e da Prisão) só foram finalizadas
em 1819, um ano após a morte de Aleijadinho.
Durante o processo de recuperação
das imagens, os técnicos comprovaram uma
antiga suspeita. Foram identificadas debaixo da
tinta azul das capelas trabalhos atribuídos
a Manuel da Costa Ataíde (1762-1830), o
Mestre Ataíde, considerado o maior expoente
da pintura rococó. A suspeita é
que as pinturas tenham sido cobertas na última
grande reforma, realizada em 1957. Ataíde
e Aleijadinho costumavam ser parceiros em trabalhos
nas igrejas mineiras. A restauração
das pinturas depende ainda de um projeto do Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (Iphan).
Iniciado no final de novembro do ano passado,
o projeto abrangeu também a recuperação
do conjunto arquitetônico e paisagístico
do entorno da basílica. As capelas, cujas
cúpulas apresentavam várias trincas,
também precisaram ser tratadas. A arquiteta
Silvana Emídio Souza explica que o reboco
externo foi substituído por uma cobertura
de cal e areia, mais próxima do original.
Várias intervenções foram
feitas ainda nas fachadas das casas do Beco dos
Canudos, que originalmente serviam para abrigar
os romeiros que visitavam o santuário e
hoje concentra o comércio religioso do
local.
Jornal Estadão
20/12/2004
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