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Roubados 24 livros raros do Museu Nacional do Rio
Carolina Iskandarian

Entre as peças levadas está uma obra em latim de Hans Staden, de 1592. Datados do século 16 ao 20, os in-fólios tinham um valor incalculável, porque muitos eram únicos


Alaor Filho/AE
Na foto, a chefe da biblioteca do Museu, Laura Maria Gayer Takche, inspeciona um livro danificado, parecido com os que foram roubados


Rio de Janeiro - Pelo menos 24 livros raros dos séculos 16 a 20 foram roubados da biblioteca do Museu Nacional do Rio, na Quinta da Boa Vista, zona norte. Entre as peças levadas está uma obra em latim de Hans Staden, datada de 1592, sobre índios do Brasil e América do Sul e um livro de 1860 de Charles Ribeyrolles com fotos de D. Pedro II e da família imperial.

A direção do museu não soube informar quando os livros, chamados in-fólios (grandes e pesados) foram roubados, pois só deram falta do material na quinta-feira, após uma solicitação de pesquisa. A Polícia Federal, em greve desde março, foi informada do fato na terça-feira, mas até hoje, não havia passado no museu.

A perda pode ser maior, pois há o risco de mais obras terem sumido. “Um professor daqui veio fazer uma pesquisa nesta quinta-feira e pediu um in-fólio. Quando abrimos a caixa, estava vazia. A partir daí começamos a fazer o levantamento do que havia desaparecido”, disse Laura Maria Gayer Takche, chefe da biblioteca do museu.

O inventário dos cerca de 1700 in-fólios terminou na segunda-feira, quando foi detectado o sumiço das 24 peças. Outra inspeção está sendo feita no acervo de 2.500 volumes menores que também são considerados obras raras. Laura informou que até agora nada foi levado deste conjunto. Ela disse que, em 1989, 17 in-fólios foram roubados, mas todos foram recuperados.

As obras levadas tinham textos e fotos sobre botânica, aves raras, arqueologia, antropologia, história do Brasil, entre outros assuntos. Para Laura, o roubo foi planejado por profissionais. “O valor é incalculável porque muitas obras são únicas. A pessoa que fez isso sabia o que queria”, disse ela, acrecentando que as peças seriam mais facilmente vendidas na Europa. Doze obras foram levadas inteiras.

Outras, que tiveram gravuras e textos arrancados, foram deixadas pela metade e em alguns livros apenas a capa porque a encadernação não era original. Os in-fólios ficam expostos nas prateleiras da biblioteca, armazenados em caixas de um papelão especial para conter acidez e claridade. Laura explicou que eles podem ser consultados por qualquer pessoa, mas sempre sob supervisão de um funcionário do museu. “Nossa grande dúvida é como esses livros foram levados. Estamos procurando uma pista.” O local, trancado a chaves, não tem sinais de arrombamento.

Outra questão que intriga a direção do museu é com relação à data exata do roubo. Segundo o diretor da instituição, Sérgio Alex Azevedo, o último inventário do acervo, feito em 2001, mostrou que ele estava completo. “Sabemos que dois livros roubados estiveram em uma exposição em outubro do ano passado, no Palácio Capanema (no centro). Tem página que foi deixada cortada para ser retirada mais tarde. Esse roubo está em curso”, disse ele, referindo-se a in-fólios que foram deixados na biblioteca, mas estariam prontos para serem levados.

Apesar do roubo ter sido descoberto tarde, Azevedo tem esperança de reaver as peças. “Se o livro aparecer em algum lugar, a notícia pode vazar porque são obras únicas. Estou esperando a investigação da Polícia Federal porque não tenho pistas dos responsáveis.” Ele não afirmou se há funcionários do museu envolvidos no caso, mas admitiu que a maior parte dos roubos na instituição “indicam participação interna.” Procurada, a PF do Rio respondeu por e-mail que “estão sendo tomadas as providências necessárias para o procedimento criminal. Nos próximos dias será aberto inquérito policial, que ficará a cargo da Delegacia de Meio Ambiente e Patrimônio Histórico.” Paralelo ao trabalho da polícia, o museu terá uma comissão interna para apurar os fatos. Funcionários devem ser ouvidos e as informações colhidas serão anexadas ao inquérito policial.

Segundo Azevedo, o museu tem graves problemas de segurança. São apenas 20 vigilantes, que se revezam em turnos, para tomar conta da instituição. Além disso, não há sistema contra incêndio, “apenas alguns extintores”, disse. Ele reivindica ainda câmeras de vídeo. “Nosso projeto de segurança prevê 40 câmeras para o museu, sendo 16 só na biblioteca.” Azevedo informou que, desde outubro, espera a liberação de R$ 40 milhões de Brasília para as obras emergenciais.

Mapas - Em julho do ano passado, 150 mapas e 500 fotos dos séculos 17 e 18 foram roubados do acervo do Ministério das Relações Exteriores, no Palácio do Itamaraty, no centro do Rio. Algumas peças, entre mapas históricos, gravuras, litografias e fotografias, chegaram a ser avaliadas em R$ 6 milhões. Apenas parte do material foi recuperada.

Jornal Estadão
07/05/2004