EXPOSIÇÕES
 
MORTE DAS CASAS NUNO RAMOS

A semana de visitação à montagem da exposição MORTE DAS CASAS, do artista plástico Nuno Ramos, acontecerá do dia 13 a 16 de abril, no CCBB-SP. Essa atividade inédita, permitirá que o público interaja com o artista e aprecie o seu trabalho no momento em que está sendo concebido.

Serão dois grupos diários: 14h às 17h / 17h30 às 20h30. As inscrições deverão ser agendadas pelo (11) 3113 - 3649 e as vagas são limitadas. Idade acima de 14 anos.

Chuva do lado de dentro do prédio, alvorada banhada em sangue, um rio negro sobre o mármore branco. A tensão, a estranheza e até a comunhão existente nas aparentes contradições vão tomar conta do Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, a partir do dia 21 de abril, quando Nuno Ramos inaugura “Morte das Casas”, uma exposição com quatro instalações inéditas. Pensadas especialmente para a sede paulistana do CCBB – na data que marca seu 3º aniversário - as peças dialogam com a arquitetura do prédio da Rua Álvares Penteado, erguido em 1901. Jóia do centro histórico da cidade, a antiga sede do Banco do Brasil é um dos melhores exemplos da arquitetura paulistana do início do século XX.

Como vem sendo uma característica em sua carreira, Nuno - um dos maiores artistas brasileiros revelados na década de 80 - toma partido desta arquitetura histórica para aprofundar algumas das características fundamentais de seu trabalho. "Estou chegando à maturidade artística, por isso tenho procurado encontrar um núcleo poético na minha obra, fios que liguem tudo, um lugar para as coisas que eu sempre abordo", conta o artista, que, no CCBB, deixa mais explícita sua paixão antiga pela palavra e pela literatura.

É um poema de Carlos Drummond de Andrade, "Morte das casas de Ouro Preto", que serve de fundo sonoro para a instalação "Morte das casas", que promete ser a de maior impacto da mostra. Nuno vai fazer chover no hall de entrada do prédio. A água vai chegar pela clarabóia, caindo de mais de 20 metros de altura e inundando uma área rebaixada do térreo. Enquanto recebe o impacto desta imagem, o público vai ouvir um coro de vozes masculinas declamando os versos de Drummond ("Sobre o tempo, sobre a taipa/ a chuva escorre. As paredes/ que viram morrer os homens,/que viram fugir o ouro,/que viram finar-se o reino,/ que viram, reviram, viram/ já não vêem/ Também morrem.). Segundo o artista, sua idéia foi criar uma atmosfera de catarse e de alto impacto para servir de cartão de visita para os outros trabalhos. A idéia de abandono, da matéria jogada à deriva e à espera da morte - e, portanto, da transformação - é recorrente na obra de Nuno. E reaparece nesta primeira instalação. "Realmente não pode haver maior sensação de abandono do que a chuva dentro do prédio. Chover do lado de dentro também tem a ver com a conjugação de elementos contraditórios, estranhos, outra marca do meu trabalho", avalia ele.

No Subsolo, a instalação "Alvorada" une palavra, música e cinema. Nuno interrompe o primeiro verso da canção homônima de Cartola e Elton Medeiros e usa a frase "Alvorada lá no morro que..." como mote da obra, que reúne ainda dois vídeos. As paredes da sala circular serão revestidas de areia socada vermelha. A frase aparece em relevo - ora ressaltada em 15 centímetros da superfície, ora rebaixada na mesma medida - numa clara referência a uma inscrição de túmulo. No primeiro vídeo, dividido em três telas de vidro, um carro vermelho anda pelas ruas da periferia de São Paulo com uma caixa de som gritando, a todo vapor: "Alvorada! Alvorada!". No outro filme, em cima de uma laje de casa de subúrbio, homens se sucedem na tentativa de gritar "Alvorada" num megafone. Levam um tiro toda vez que conseguem, caindo de cima do telhado. Neste trabalho, Nuno opõe a crueza e a violência ao lirismo da canção de Cartola e Elton Medeiros, que, não por acaso, foi interrompida antes de dizer palavras doces e cheias de esperança sobre a vida na favela ("Alvorada, lá no morro, que beleza/ Ninguém chora, não há tristeza/ Ninguém sente dissabor”).

O terceiro trabalho é "Cascos". Nuno vai trespassar um casco de barco traineira com outros cascos semelhantes, criando uma espécie de recheio (que ele prefere chamar de "alma") para uma escultura monumental, que vai ser recoberta por areia. Mais uma vez, o artista joga com elementos de um mesmo universo - em vez de atracar na areia, o barco vai ser coberto e praticamente constituído por ela. "Quero deixar pedaços dos cascos à mostra. A sala onde vai estar este trabalho forma uma espécie de 'V'. Numa das pontas vai estar a escultura, na outra um vídeo que a complementa", conta ele. No vídeo, sete atores filmados da cintura para cima declamam um texto escrito pelo próprio artista, ora em maré cheia, ora em maré baixa. A palavra, importante também em "Morte das casas" e "Alvorada", se transforma em elemento fundamental deste trabalho.

A quarta e última peça da mostra é "Choro negro". Nuno criou três formas geométricas de mármore branco ("São como paralelepípedos assimétricos, irregulares", explica ele) e vai pousar sobre elas um sólido negro feito de breu. Depois disso, vai aquecer o mármore nos pontos de contato com o breu, fazendo com que ele escorra sobre a superfície branca e sobre o piso, num choro negro literal. "A forma do mármore faz uma alusão clara a uma memória de túmulo, de lápide. O breu é um material muito moldável, que derrete fácil, e vai chorar sobre este mármore. Esta é a peça mais plástica da mostra, menos relacionada com a palavra e a literatura", diz Nuno. Outra grande novidade da exposição é que o processo de criação do artista e seu trabalho na produção das peças, tão relevante quando o assunto é arte contemporânea, vai pode ser acompanhado pelo público. Do dia 13 a 16 de abril, os interessados vão poder visitar as salas onde Nuno estará preparando a exposição.

O livro da mostra será lançado no dia 25 de maio e terá em torno de 200 páginas, contendo 150 imagens, documentando parte da obra anterior do artista, mas principalmente as quatro instalações produzidas para o CCBB-SP, bem como textos críticos bilíngues (português/inglês) de Paulo Venâncio Filho e Vilma Areas, que pretende debater questões fundamentais da arte contemporânea.

SERVIÇO Centro Cultural Banco do Brasil Rua Álvares Penteado, 112 - Centro (próximo às estações Sé e São Bento do Metrô) Tel: (11) 3113 – 3651 / 3652 Abertura: 21 de abril Temporada: de 22 de abril a 20 de junho. Visitação: de terça a domingo, das 10h às 21h. Entrada: grátis

07/04/2004