O Rio de Janeiro que passou
No varandão da saudade (IX)
Nós éramos felizes e não sabíamos
A essa altura, vocês já sabem que, durante o Carnaval de 2002, na varanda lá de casa, bati um papo com o Brumel Delano – o meu alter ego virtual, aquele que mora no meu computador – e chegamos à conclusão de que éramos felizes e não sabíamos...
Os delitos da época
Vejam como eram praticados os delitos de antigamente. Creio que em outras cidades, o perfil era o mesmo.
Na verdade, contrariando o que lhes disse em um dos "No varandão da saudade", a polícia não tinha só ladrão de galinhas para prender. Havia os estelionatários, cuja criatividade deixava no chinelo os nossos novelistas de plantão.
Trago uma história de memória. Não sei bem se li nos jornais da época ou se alguém - talvez o meu pai - me contou.
O conto dos pastéis
Um cidadão, aparentando uns 40 anos, com pinta de bem posto na vida, de terno – como se exigia nos anos 50 -, adentra a uma pastelaria, com a mulher e um garoto de uns 9 anos.
Pede três pastéis e três caldos de cana ao chinês, o dono da pastelaria. Começa a elogiar os pastéis e vai sabendo logo o nome do chinês, com quem trava o seguinte diálogo:
- Sr. Ling, gostei muito dos seus pastéis. Ao lado, sentados ao balcão a senhora e o garoto, calados, comiam seus pastéis regados a caldo de cana.
- Gostei tanto que farei uma encomenda de 600 pastéis.
- Mas para que tantos pastéis, doutor? Pergunta o chinês.
- 500 pastéis, vou doar a asilos de idosos e orfanatos, através de um amigo; já que, quando vou lá e vejo aquelas criancinhas e velhinhos abandonados, me deprimo muito. Vou ver se um amigo meu pode leva-los para mim. Os outros 100, levo eu para os operários lá da fábrica.
- Todos ficarão prontos às 15 horas, doutor. O de camarão é um pouco mais caro.
- Dinheiro, Sr. Ling, não é problema. 200 de carne, 200 de queijo e 200 de camarão; e, enfiando a mão no bolso, perguntou: quer que lhe pague tudo agora?
- Não, doutor, por favor, pode pagar tudo contra-entrega. A despesa de agora fica por conta da casa...
- Muito obrigado, Sr. Ling. Então, está tudo combinado. Até, às 3 da tarde.
Saem os três da pastelaria e o homem, depois de despachar a mulher e o menino, entra numa sapataria ao lado, onde começa um outro diálogo:
- Vim fazer uma visita ao meu amigo e cliente Sr. Ling, seu vizinho aí do lado e, como estou precisando de sapatos...
- Ah! Sei, o Sr. Ling é gente muito séria.
Para encurtar a história, depois de esbanjar simpatia com o Sr. Pedro, dono da sapataria, comprou alguns sapatos, no valor de um pouco mais de 500 cruzeiros, pedindo um desconto que arredondasse os 500 cruzeiros; o que foi aceito de pronto.
E, levando o Sr. Pedro até à calçada da pastelaria, já com os sapatos embrulhados, com a mão no ombro dele, diz:
- Sr. Ling, daqueles 600, por favor, entregue 500 a este nosso amigo. Quanto ao restante, volto às 3 horas; combinado?
- Tudo bem, doutor. Disse o chinês.
E foi embora, levando os sapatos.
Que saudade dos bandidos de outrora... Hoje, tenho até medo de abrir os jornais.
João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações
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