O Rio de Janeiro que passou
No varandão da saudade (VIII)
Nós éramos felizes e não sabíamos
Reportando-me às minhas conversas com Brumel Delano – o meu alter ego virtual –, na varanda lá de casa, no Carnaval de 2002, concluímos que éramos felicíssimos e não sabíamos...
O futebol carioca
Já disse, em outro artigo desta série, que a população do Rio de Janeiro, em 1950, não tinha chegado a dois milhões de habitantes e cerca de 10% deles, todos os domingos, lotava o Maracanã para ver um excelente futebol. Em outros cinco campos de futebol eram realizadas outras partidas. Para não nos alongarmos, vamos tratar apenas do futebol carioca.
O "Torneio Início"
Tínhamos um campeonato carioca para ninguém botar defeito. Começava com um "Torneio Início" emocionante, quando os times iam se digladiando num mata-mata de jogos de 20 minutos.
Se desse empate, a decisão era nos tradicionais tiros livres da marca do pênalti. No final, sobravam dois, que disputavam um jogo decisivo. Tudo isso acontecia no Maracanã, iniciando pela manhã e terminando no mesmo dia à noitinha.
A ida e volta
O campeonato carioca, propriamente dito, começava no domingo seguinte ao "Torneio Início" e só havia jogos de futebol aos domingos.
Doze clubes disputavam o Campeonato Carioca, com times imutáveis durante anos... Dificilmente, um jogador mudava de um clube para outro; iniciavam e penduravam as chuteiras no mesmo clube. Sabíamos todas as escalações na ponta da língua.
Havia seis clubes chamados grandes, em se considerando um maior investimento financeiro na aquisição de jogadores e com seus salários – Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo América e Bangu; e mais outros seis chamados pequenos, que investiam menos, mas "incomodavam" muito.
Aos domingos e só aos domingos, eram disputados seis jogos, um em cada local, conforme o mando de campo. No turno, digamos, em casa e no returno na casa do adversário. No final do campeonato, quem conseguisse mais pontos era o campeão.
Não era um campeonato fácil. Os seis grandes suavam a camisa entre eles e, às vezes, suavam sangue para vencer o Olaria, Bonsucesso, São Cristóvão, Madureira, Canto do Rio ou a Portuguesa.
Todo ano, um ou dois pequenos se ensaiavam como grandes, montando times "enjoados", nos moldes atuais do São Caetano, de São Paulo.
Resultado: todos os domingos, o Maracanã ficava lotado para assistir a um clássico, e assim acontecia nos outros estádios; onde, por exemplo, no alçapão da Vila Bariri, o Flamengo poderia sofrer uma derrota para o Olaria, que era comemorada pelos demais torcedores, como um vitória de seus próprios clubes.
Triste constatação
Não temos mais times grandes ou pequenos. Em se considerando os investimentos que fazem, todos se nivelaram por baixo e viraram times pequenos.
Os estádios estão vazios. Em breve, com o futebol exibido pela TV, veremos crianças cariocas torcendo por clubes de futebol de outros Estados ou de outros países.
João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações - SP
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