O Rio de Janeiro que passou
No varandão da saudade (V)
Nós éramos felizes e não sabíamos
Continuando a comparar o passado com o presente, ponderações ocorridas durante no Carnaval de 2002, eu e o Brumel Delano – o meu amigo e alter ego virtual –, com certeza, concluímos que éramos felizes e não sabíamos.
Transportes e restaurantes nos anos dourados
Já tinha uns 18 anos. No Rio de Janeiro, à noite, não havia transportes coletivos e restaurantes. A cidade praticamente parava para dormir. Um ou outro automóvel noctívago era o que nos impedia de dormir nos trilhos dos bondes.
Onde comer à noite, após as 22 horas? Havia, apenas, duas opções. Em uma leiteria da Lapa, onde se sentava à mesa para tomar café com leite, pão e manteiga, ou o imperdível "Angu do Gomes", na Praça XV. A companhia dos famigerados malandros da época, em ambos lugares, era inevitável.
Saíamos dos bailes do Hotel Glória, da Hebraica, do Sírio e Libanês ou do Fluminense, às 4 da madrugada, e - de roupa a rigor -, íamos a pé até à Praça XV, muitas vezes atravessando a "perigosa" Lapa com seus famosos "meliantes", sem jamais encontrar um carro da polícia...
Se a fome apertava na Lapa, o bando de moças e rapazes entrava numa leiteria ou, se ainda não estivesse aberta, administrávamos a fome até a carrocinha do "Angu do Gomes", que estava sempre lá, junto às Barcas da Cantareira. Já tive algumas intoxicações, mas nunca nas carrocinhas do "Angu do Gomes...".
Esperávamos o primeiro lotação – um microônibus de 18 lugares montado em chassis de caminhão –, batendo papo com os trabalhadores da noite, músicos e cantores, entre eles o saudoso Pedrinho Rodrigues, o crooner do "Conjunto do Ed Lincoln", até as cinco da matina, quando chegava o lotação e dormíamos a viagem toda, jiboiando o angu, até o motorista nos acordar no local previamente indicado.
O estranho é que nunca fomos assaltados e, às vezes, esperando o lotação, ficávamos batendo papos com os "bandidos" da época, e ainda filávamos deles um cigarro.
O perigoso inseto da época
Havia um minúsculo inseto que incomodava a população: o lacerdinha. A praga foi introduzida no Brasil em 1961, originário da Ásia Oriental, que se propagava no fícus, um arbusto que hoje quase não se vê mais. O nome, verbete do dicionário Aurélio, "homenageava" o então Governador do Estado da Guanabara, o udenista Carlos Lacerda, de certo, por inspiração de seus inimigos políticos do PTB, ainda getulista.
Todos reclamavam, pedindo a erradicação dos tais lacerdinhas, que nos levavam ao auge do desconforto quando caiam nos nossos olhos. Os lacerdinhas sumiram e o fícus quase não é visto na cidade; mas hoje temos muitas bromélias, muito descaso com o assunto e, por via de conseqüência, o mosquito da dengue...
Como em toda regra há exceção, os restaurantes cariocas - hoje abundantes - melhoraram da água para o vinho; mas, que saudade dos lacerdinhas e dos bandidos daquela época..
João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações
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