O Rio de Janeiro que passou

No varandão da saudade (IV)

Nós éramos felizes e não sabíamos

Continuando a divagar pelo passado e comparando com o presente, reflexões que aconteceram nos dias tranqüilos do Carnaval de 2002, eu com o Brumel Delano – o meu amigo e alter ego virtual, – quando concluímos que éramos muito felizes e, de fato, não sabíamos.

Por falar em meu pai

Como todo pai, o meu tinha umas coisas que me irritava. Só fazia o que queria. Nunca teve patrão para ser dono do seu nariz.

Eram muito comuns cenas assim: ele reunia o conselho familiar e perguntava:

- Vou mandar pintar a casa. De que cor eu pinto?

José, para mudar um pouco, pinta de branco... Dizia Dona Amália, minha mãe.

Pai, pinta de branco. Dizia Zezinho, meu irmão.

Pinta a casa de branco, dizia eu.

Meu pai fazia uma pausa, silêncio sepulcral, e prolatava a sentença:

Não coincidiu; vou pintar de bege novamente. Bege é bom, que suja menos...

Meu pai era um gênio

A gente só reconhece a genialidade do pai - assim como os demais gênios – depois que ele morre. Se contei uma passagem contra, que pelo menos a outra seja a seu favor. Meu pai tinha premonições geniais. Realmente, é uma pena que a gente só dá valor ao pai depois que o perde.

Um dia o instituto de previdência o processou por falta de pagamento das contribuições. Era advogado autônomo e deixou de recolher à previdência.

Não vou pagar de jeito nenhum... Vociferava ele.

Pai, paga esse negócio...

João, sabe o que vai acontecer? Eu vou pagar 35 anos e, depois, na hora de receber, eles vão me dar uma "micharia" que, além disso, vai ser corroída por essa inflação que assola este país. Estou construindo a minha aposentadoria com a construção das minhas gaiolas - que era como ele chamava os apartamentos de aluguel, que construía.

O hobby do meu pai era a construção civil. Engenheiro de nascimento, com formação em Direito. Foi o que fez e, para ele, deu certo. Minha mãe e ele viveram disso até falecerem.

Mutatis mutandis, é o que está acontecendo. Tem gente que se aposentou com cerca de oito salários mínimos, em 1992, e hoje, em 2002, recebe o equivalente a não mais de cinco salários. E o futuro não é nada promissor...

João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações - SP
Tel.: (55 - 21) 3325-1500, 3325-8641 e 9984-6846

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