O Rio de Janeiro que passou

No varandão da saudade (III)

Nós éramos felizes e não sabíamos

Na varanda da minha casa, conversava com o Brumel Delano – o meu alter ego virtual, que mora dentro do meu computador – e chegamos, ele e eu, à conclusão de que éramos felizes e não sabíamos...

A televisão e os televizinhos

Televisores eram raríssimos. Em 1950, a TV foi implantada no Rio e São Paulo. Não se assistia aos programas de televisão, mas sim, todos boquiabertos, admiravam o aparelho televisor.

- Seu Ovídio, pode ver televisão?

- Pode, João Carlos. Senta lá no tapete.

E a sala de televisão estava cheia de televizinhos para ver uma imagem pífia, cheia de chuviscos e fantasmas. O som, não dá hoje nem para explicar: oscilava e, volta e meia, entrava um barulho alto e grave; quando se esboçava uma corrida até ao aparelho – controle remoto é coisa dos anos 80 - para diminuir o som, o barulho parava, para depois voltar, quando se acabava de sentar.

Onde estivesse uma TV, tínhamos uma sala de torturas.

O progresso chegou em casa

Meu pai só foi convencido pela família em 1955 – eu tinha doze anos - e comprou a nossa primeira televisão, o símbolo de status que desbancou a geladeira elétrica, esta representando o sonho de consumo dos anos 40. Minha mãe ganhou uma geladeira no dia em que nasci. Eu já tinha uns 45 anos e a velha geladeira estava funcionando muito bem, como deve ainda estar funcionando em algum lugar por aí.

Naquela época, decerto, não existia a obsolescência planejada e os eletrodomésticos eram chamados de bens duráveis.

No dia em que a televisão chegou, meu pai me explicou:

- Agora sim, a aquisição se justifica. A imagem é outra...

Campeões do ringue

Conversa fiada, ainda tinha os mesmos problemas. É que meu pai adorava assistir lutas de boxe. Gostava tanto que um dia me levou para assistir ao vivo lá na TV Tupi, no Cassino da Urca. Sabe quem era o apresentador das lutas? Léo Batista; ele mesmo. Gostaria de saber a idade do Léo Batista... Eu era guri e ele tinha a mesma cara e a mesma voz de hoje.

A TV Tupi (e depois a TV Rio) transmitia as lutas. Meu pai torcia pelos lutadores estrangeiros contra os brasileiros, só para me irritar, e conseguia...

A televisão era pobre. Mesmo assim, nos passava mais cultura do que hoje.

Hoje, morro de saudade das irritações com meu pai, por conta das atrocidades que se vê na TV aberta brasileira.

João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações - SP
Tel.: (55 - 21) 3325-1500, 3325-8641 e 9984-6846

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