O Rio de Janeiro que passou

No varandão da saudade (II)

Nós éramos felizes e não sabíamos

Continuando as minhas elucubrações no Carnaval de 2002, dizia que conversava com o Brumel Delano – o meu alter ego virtual –, na varanda lá de casa, e chegamos à conclusão de que éramos muito felizes e não sabíamos...

Esses nomes estranhos

Os mais jovens devem estancar diante da palavra leiteiro, assim como para outras palavras como carvoaria, venda, quitanda, leiteria, peixaria, todos estabelecimentos comerciais do passado que foram engolidos pela voracidade do supermercado.

O açougue, ao que me parece, está agonizando. A padaria, o botequim, o armarinho e a farmácia resistem bravamente, mas não se sabe até quando.

O leite «batizado»

O leite era vendido nas ruas, de manhã, e o leiteiro aparecia junto com o sol, muitas vezes antes dele.

O leiteiro chegava numa carroça-pipa puxada por um cavalo e, depois, evoluiu para uma caminhonete-pipa. Vendia um leite puro e saboroso. Leite integral que dava uma nata para ninguém botar defeito.

Um dia, prenderam o leiteiro. Fiscais da "Economia Popular" chegaram num carro preto, fizeram uma análise do leite, ali mesmo na rua, com uns instrumentos de precisão discutível e deram voz de prisão ao pobre do leiteiro, pelo odioso crime de ter adicionado 5% de água ao leite...

O leiteiro, chorando, alegava que era obrigado a colocar uma barra de gelo na pipa do leite, para que o mesmo não fermentasse com o sol da manhã. Tudo em vão, o leiteiro foi levado preso e nunca mais se soube dele. Juro que aquele leiteiro era inocente, não tinha perfil para o delito e, além do mais, o leite era i-m-p-e-r-d-í-v-e-l...

Tudo industrializado

A partir daí, o leite passou a ser vendido na padaria dos irmãos João e Luiz, dois portugueses de meia-idade muito bacanas, nos tradicionais litros de vidro.

Todo o dia, lá ia eu comprar duas bisnagas de pão, 100 gramas de manteiga, 200 gramas de café moído na hora e um litro de leite – que vinha gelado. Lembro-me de ter feito, certa vez, um comentário:

- Cuidado, Seu Luiz, o leiteiro foi preso porque estava vendendo leite gelado...

E ele me respondeu, rindo, com a frase de sempre:

- João, João, pilhaste-me um tostão...

Só muitos anos depois, é que eu fui saber o que queria dizer aquela frase recorrente do Seu Luiz.

Como os tempos mudam; hoje, o leite desnatado – o mais procurado – nem se compara ao leite que era vendido na caminhonete-pipa da minha infância e ninguém vai preso...

João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações - SP
Tel.: (55 - 21) 3325-1500, 3325-8641 e 9984-6846

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