O Rio de Janeiro que passou

No varandão da saudade (XI)

Nós éramos felizes e não sabíamos

Mais uma conversa, ocorrida no Carnaval de 2002, na varanda lá de casa, com o Brumel Delano – o meu alter ego virtual, aquele que mora no meu computador – e chegamos à conclusão de que éramos muito felizes e não sabíamos...

Férias em Icaraí

Como as coisas mudaram. Hoje, se um carioca disser que vai passar as férias em Icaraí, em Niterói, na antiga capital do Estado do Rio de Janeiro, ninguém vai entender... Mas já houve época, até a construção da ponte Rio-Niterói, no final dos anos 60, que passar férias em Icaraí era, no mínimo, chique.

Um lugar mágico

A Praia de Icaraí era longe "pra dedéu"... De carro, levava quase duas horas; sem a ponte, tínhamos que dar a volta em toda a Baía de Guanabara, passando lá por Magé. Ou, então, umas três horas ou mais, quando enfrentávamos uma fila quilométrica na Praça XV, no Rio de Janeiro, para colocar o automóvel dentro de uma barcaça que atravessava a Baía da Guanabara; aí, chegando à Niterói, era rápido.

De transporte coletivo, também, era uma epopéia: ia-se de lotação até a Praça XV, pegava-se a Cantareira até a terra de Araribóia e, depois, um trolleybus até Icaraí. Trocando em miúdos: pegava-se um microônibus de 18 lugares, que literariamente voava até as Barcas S.A., na Praça XV; pegava-se uma das ditas cujas até Niterói e, em lá estando, um ônibus elétrico, até Icaraí.

Tenho uma declarada paixão por Icaraí. Niterói – nomeadamente Icaraí e a região oceânica – é uma cidade muito bonita. Logicamente, que não estou me só referindo à vista fantástica do Rio de Janeiro, tomada de Icaraí. Isso, também, faz de Niterói uma cidade maravilhosa.

Por um acaso, comecei a namorar a minha mulher em Niterói. É não é por acaso que o meu time de coração, sem tirar um pé da tradição da Rua General Severiano, em Botafogo, colocou o outro no Estádio Caio Martins, em Niterói, cidade com excelente poder aquisitivo.

Aconselho àqueles que não conhecem ou não têm ido a Icaraí e região oceânica de Niterói, que façam o circuito turístico que fazia quando tinha uns 17 anos. Vale a pena.

Niterói é uma cidade organizada, limpa e, me parece, relativamente segura. Estou falando de uma das melhores cidades do país em qualidade de vida e da que tem um dos menores índices de analfabetismo.

A família Madeira

Anualmente, em fevereiro, os Madeira passavam as férias de verão em Icaraí. Vinte e um dias tomando banho de mar, hospedados no Icaray Pallace Hotel, na Praça do Ingá, hotel construído com muita madeira e pouca alvenaria, à beira mar. Há muito tempo, ele foi demolido e em seu lugar vemos hoje edifícios de altíssimo nível.

Às sextas-feiras, eu era convocado pelo meu amigo Maurício Madeira, para passar o final de semana com eles, voltando à minha casa no domingo à tarde. Eram finais de semana memoráveis: o mar era azul, os dias dourados e a fome...

A fome era negra

Imaginem uma turma de garotos e garotas, para cima e para baixo, pegando praia o dia todo e, chegando na hora do almoço e do jantar, encarando um cardápio francês fantástico, porém minguado...

Lembro do inigualável arroz singelo do hotel, realmente imperdível, mas numa quantidade de irritar. Em todas as refeições o Seu Abel, diga-se de passagem, uma boníssima alma e chefe do clã Madeira, como todo bom português, habituado à fartura, "morria" num extra para saciar a fome da garotada: arroz singelo com ovos estalados. Até o "extra" era minguado...

Caça ao siri

O jeito era voltar para a praia à noite, em frente ao hotel, apetrechado de puçá e lata de banha vazia, para pegar siri. Simples: fazia-se uma fogueira, enchia-se a lata - originalmente usada para enlatar 20 quilos de banha de porco – com a água do mar e o puçá sempre cheio de siris, que entravam cinzentos e saiam vermelhos para os buchos famintos da moçada, dos circunstantes e dos passantes, que traziam cerveja em troca de siris cozidos.

Hoje, a Praia de Icaraí continua arrumada, com um povo bom, mulheres bonitas, restaurantes agradabilíssimos, mas lhe faltam os amigos de então, o lotação, a Cantareira, o trolleybus, o Icaray Pallace Hotel, a Baía da Guanabara limpa, a fogueira na praia, a lata de banha, os siris cozidos, a permuta com as cervejas e, ia me esquecendo, o fantástico arroz singelo...

João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações - SP
Tel.: (55 - 21) 3325-1500, 3325-8641 e 9984-6846

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