O Rio de Janeiro que passou
No varandão da saudade (X)
Nós éramos felizes e não sabíamos
Continuo a reportar a vocês a conversa, ocorrida no Carnaval de 2002, na varanda lá de casa, com o Brumel Delano – o meu alter ego virtual, aquele que mora no meu computador – e chegamos à conclusão de que éramos muito felizes e não sabíamos...
A pasta de dentes
Assim era chamado o creme dental antigamente. Parece-me que os produtos daquela época eram fabricados com mais critério, com a intenção de que os consumidores ficassem realmente satisfeitos e cativos. A tônica empresarial de era: consumidor satisfeito sempre volta a comprar.
Observe o exemplo. Lembro-me que um tubo de pasta de dentes durava meses. Era um tubo gordinho e a pasta custava um pouco para sair, se o tubo não fosse bem apertado.
A obsolescência planejada
Muito provavelmente em nome de um lucro maior, mas com a desculpa de manter o pleno-emprego, começou-se a falar numa tal obsolescência planejada.
Trocando em miúdos, passou-se a ter uma mentalidade empresarial de produzir bens que ficassem logo obsoletos ou fossem consumidos mais rapidamente, a fim de que o consumidor voltasse a compra-los; pois assim, diziam, se manteria o emprego de todos.
De grão em grão, a galinha enche o papo
Conta-se que uma empresa de produtos de higiene de um outro país, no final dos anos 60, promoveu uma competição interna, com o objetivo de aumentar em 10% os lucros com o creme dental. O funcionário vencedor teve a bela idéia de tornar o orifício de saída do tubo 10% maior; assim, quando o consumidor o apertasse, de certo, sairia mais 10% de creme...
Passado um tempo, os diretores da fábrica voltaram a sugerir um novo aumento de lucro, mais 10%. A idéia vencedora foi tornar a pasta de dentes 10% menos densa; assim, ao apertar o tubo, o consumidor usaria mais 10% do produto...
E a coisa foi nesse crescendo, abrindo-se mais a boca do tubo e tornando o produto cada vez mais mole.
Por fim, lançou-se o tubo de plástico, que dá uma falsa idéia de que está sempre cheio. De fato, sempre cheio de ar...
E o pleno-emprego?
Mesmo assim, o desemprego cresce assustadoramente e a obsolescência, aqui e no mundo, nunca mais saiu de moda.
João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações
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Outras crônicas:
A pasta de dentes mudou de nome
Sapoti, tamarindo e jabuticaba
