Crônicas do Cotidiano

Trens, bondes e os mineiros

Minha gente, os mineiros sabem das coisas... Volta e meia, ouve-se alguém zombando dos mineiros, só porque eles usam a palavra "trem" como sinônimo de coisas diversas. No passado, diziam que os mineiros vinham para o Rio de Janeiro para comprar bonde. Pura lenda, a realidade é bem diferente.

Movido pela curiosidade, resolvi consultar um dicionário brasileiro da língua portuguesa, nomeadamente o Aurélio, e um outro, de Portugal, o Dicionário Universal, da Texto Editora, e vejam o resultado:

O que diz o Aurélio

Segundo o Aurélio, trem quer dizer:

1. Conjunto de objetos que formam a bagagem de um viajante.
2. Comitiva, séqüito.
3. Mobiliário de uma casa.
4. Conjunto de objetos apropriados para certos serviços.
5. Carruagem.
6. Vestuário, traje.
7. Na Marinha de Guerra Brasileira, grupamento de navios auxiliares destinados aos serviços (reparos, abastecimentos, etc) de uma esquadra.
8. Comboio ferroviário; trem de ferro (brasileirismo).
9. Bateria de cozinha (brasileirismo).
10. Em Minas Gerais, na linguagem popular, qualquer objeto ou coisa; coisa, negócio, treco, troço (brasileirismo).
11. Em Minas Gerais, indivíduo sem préstimo, ou de mau caráter; traste (brasileirismo).
12. Em Minas Gerais, na linguagem popular, diz-se de pessoa ou coisa ruim, ordinária, imprestável; trenheiro (brasileirismo).

E vai por aí. Não deixe de conferir no seu dicionário, posto que não transcrevi as definições ipsis litteris.

Comboio, no fim da linha

Vejam que o sentido de comboio ferroviário é apenas a oitava acepção e, ainda assim, é considerado um brasileirismo.

Segundo nos conta a sabedoria popular, o comboio ferroviário recebeu, no Brasil, o nome de trem, justamente porque o comboio ferroviário transportava os trens (as bagagens) das pessoas. Elas diziam: "vou esperar os meus trens", no que acabou em "vou esperar o trem"; e, assim, o comboio virou trem.

E lá, em Portugal?

O Dicionário Universal, da Texto Editora, editado em Portugal, nos dá as seguintes definições da palavra trem:

do Francês train, traîner, conjunto de malas ou bagagem de um viajante; conjunto de móveis de uma casa; conjunto de utensílios de cozinha; qualquer carruagem; comitiva; no Brasil, comboio. Trem de aterragem: parte do avião que permite o contato com o solo, constituída por um sistema articulado terminado em rodas.

Veja a primeira acepção da palavra nos dois dicionários – conjunto de objetos que formam a bagagem de um viajante; e conjunto de malas ou bagagem de um viajante. Daí, concluímos que os mineiros têm razão: na bagagem de um viajante tem de tudo; então, esse tudo é composto de vários trens. Quando ele usa "trens" como sinônimo de "coisas", em se considerando o vernáculo, os mineiros estão certíssimos.

A história do bonde

Outra maldade, decerto, é dizer que os mineiros vinham antigamente ao Rio de Janeiro para comprar bondes. É verdade, os mineiros compravam bondes; eles e todas as demais pessoas compravam bondes...

O bonde, na verdade, deveria ser chamado, também por aqui, de "carro elétrico" ou "elétrico"; aliás, como é chamado em Portugal, país que inventou a língua, mas...

Como se sabe, nos Estados Unidos da América, entre outros significados, "bond" é o título de dívida emitido por uma empresa criando obrigações de fazer alguma coisa ou pagar certa quantia. Outra definição é: título da dívida pública, pagável ao portador. Contudo, a palavra inglesa "bond" tem vários significados: laço, vínculo, elo, obrigação moral, ligadura, amarra, contrato, acordo, título, apólice, debênture, obrigação, bônus, entre outros.

Por isso, há quem diga que o nosso bonde é originário da forma de financiamento do empreendimento, "bonds" – obrigações –, já que todo empreendimento, à época, era precedido de uma chamada de capital no mercado aberto, para custear a implantação do sistema, e os empreendedores emitiram os seus "bonds" no lançamento dos carros elétricos, em questão.

Outros explicam que, quando os carros elétricos apareceram em Nova York, em não havendo níqueis disponíveis para que os passageiros pudessem pagar pelos serviços de transporte ou receber o troco em espécie, tiveram a idéia de emitir "bonds" – bônus – e a vendê-los aos usuários do serviço, em sua sede, nos moldes dos bilhetes que são atualmente vendidos pelo Metrô, resolvendo-se, assim, o problema do troco.

Assim, esse bilhete (em inglês, ticket), passagem ou "passe" chegou ao Brasil com o nome de "bond" e seu significado, logo depois, foi estendido ao próprio veículo, que monopolizou a denominação.

Se você tem como me provar qual das duas teses é a correta, envie-me um e-mail.

Destarte, de uma forma ou de outra, não só os mineiros, mas todos os mortais, compravam os seus "bondes", que, depois que o nome se popularizou como sendo o veículo, passaram a ser chamados de "passes", passagens, tickets, ou de bilhetes.

Daí à piada – ou a alguma tentativa de se enganar um incauto estrangeiro ou outro brasileiro qualquer – foi um pulo, e os mineiros acabaram pagando o pato... Pura lenda.

Concluí-se, então, que o povo mineiro conhece muito bem o vernáculo e, como vimos, não é trouxa, como quer a lenda. Também, é humilde, já que aceita passivamente as gozações, mesmo sabendo que está pleno de razão.

Para seu governo, o autor desta crônica é carioca.

João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações - SP
Tel.: (55 - 21) 3325-1500, 3325-8641 e 9984-6846

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