Crônicas do Cotidiano

A camisa abençoada do Botafogo

O número da sorte

Quando se fala sobre a camisa do Botafogo, vem logo à lembrança o número sete. De fato, todos lembram da sete do Garrincha, Jairzinho, Rogério, Zequinha e, mais para perto, daquelas de Gil, Maurício, e, ainda mais recentemente, embora nem fossem extremas, das de Túlio, Donizete etc., tudo isso em ordem cronológica. Conforme se depreende da lista acima, a sete não nos remete só aos pontas-direita ortodoxos; fala-se aqui, grosso modo, de atacantes que, pela direita, brilharam no time do Botafogo.

Afinal, então, qual o número da camisa abençoada do Botafogo? Ainda misturando um pouco o número de camisa com um pedaço do campo - até porque as camisas mudam, volta e meia, de função -, diria que a camisa abençoada do Botafogo é a de número quatro.

Quando Euclides da Cunha foi morto

Em 1909, eu ainda não estava por aqui, mas a literatura policial e esportiva fala de um fantástico full back pela esquerda, que se chamava Dinorah de Assis. Foi Dinorah - nome comum aos dois gêneros - quem deu início à uma série fantástica de jogadores que por ali passaram, quase sempre vestindo a camisa quatro do Botafogo, e que brilharam no futebol brasileiro e mundial.

Dinorah era irmão de Dilermando de Assis, um dos protagonistas da tragédia que se abateu sobre duas famílias; a sua, a família Assis, e a de Euclides da Cunha. O acontecimento infausto teve como pivô a bela Anna da Cunha, que, depois de se casar com o matador de seu marido e de um dos seus filhos, passou a se chamar Anna de Assis.

Os contemporâneos do triste episódio dizem que a maior vítima da tragédia foi Dinorah de Assis, aspirante a oficial da Marinha de Guerra e fantástico craque de futebol do Botafogo, que, sem nada ter a ver com o rumoroso confronto passional de 15 de agosto de 1909, levou quatro tiros pelas costas.

Esta tragédia, de que participou sem culpa nenhuma, mudou totalmente o rumo da vida de Dinorah. Euclides da Cunha, grande nome da literatura brasileira, autor de Os Sertões, foi também o autor dos disparos; contudo, não saiu ileso da tragédia, de vez que nela perdeu a vida, na troca de tiros com Dilermando de Assis.

Muito além dos verdes campos

Dinorah - no tempo em que se jogava futebol com o coração - fez questão de entrar em campo sete dias após ter sido baleado, para jogar contra o Fluminense. E não foi só. Jogou todo o campeonato carioca de 1910, ano em que o Botafogo se sagrou campeão carioca, ainda com uma das balas alojada na coluna vertebral, junto aos pulmões.

A quarta bala disparada, que atingiu Dinorah junto à nuca, foi minando aos poucos a sua saúde e, quatro anos depois do episódio, em 1913, o deixou hemiplégico para o resto da vida. Dinorah não só foi obrigado interromper a sua carreira na Marinha, como também - o que mais lamentava -, não pode mais jogar futebol pelo Botafogo, sua maior paixão.

Depois de sete anos de abandono, doenças e bebedeiras, Dinorah deu cabo à vida em 1921, afogando-se no cais do porto, na cidade Porto Alegre (RS). Morria, deste modo, a vítima esquecida (e inocente) do episódio, conhecido como A Tragédia da Piedade, por ter o fato acontecido naquele bairro do Rio de Janeiro.

E a camisa passou a fazer milagres

Acredito que foi aí, com Dinorah de Assis, que começou a tradição mística da camisa quatro do Botafogo, dos full-backs canhotos, dos beques esquerdos, quartos zagueiros, zagueiros pela esquerda ou qualquer outro nome que se dê aos defensores que fazem, em última instância, a marcação dos pontas-direita ou atacantes pela direita, que, ironicamente, quase sempre têm o sete às costas.

Já notaram a incidência e paralelismo dos números quatro e sete?

Depois de Dinorah, tivemos o argentino Basso, que diz a lenda, inspirou o futebol de Nilton Santos, que o sucedeu ficando conhecido como a enciclopédia do futebol. Nilton Santos, ninguém contesta, foi o maior lateral esquerdo de todos os tempos do futebol mundial.

O mais interessante é que Nilton Santos jogou na seleção brasileira até os 38 anos, quando foi bicampeão mundial no Chile, jogando sempre na lateral esquerda, posição que nunca o vi jogar no Botafogo: no glorioso jogava de quarto-zagueiro, mas era sempre convocado para a lateral-esquerda da seleção brasileira. Curioso, não?

Leônidas, quem não ouviu falar?

Depois do grande Nilton, veio Sebastião Leônidas, que foi cortado da seleção campeã mundial de 70, por contusão, dias antes do embarque para o México. Leônidas, sem a menor dúvida, teria sido o titular da posição inicialmente ocupada por Joel, quarto-zagueiro do Santos, e, depois, por Wilson Piazza, volante do Cruzeiro, ali improvisado.

Leônidas foi o autor da mais bela matada de bola que vi no futebol. Numa vitória de 4x1 do Brasil contra Argentina, em 1968, com 8 jogadores do Botafogo em campo, sendo técnico o botafoguense Zagallo, depois de um olé brasileiro de quase 60 passes, um zagueiro argentino deu um forte chute para cima, caindo verticalmente a bola na intermediária do Brasil. Leônidas amorteceu a bola na cabeça e a fez deslizar pelo corpo até deixa-la macia, dormindo na grama.

Conversando com Chico Anysio, ele me disse que estava no Maracanã e que se lembrava da jogada com todos os detalhes.

Explicação transcedental

Mais tarde, veio Mauro Galvão: como era bonito vê-lo com a camisa quatro do Botafogo. Depois passaram pela posição, sucessivamente, vários atletas que - quem é botafoguense lembra - jogaram ali muito bem; e até jogadores que substituem os titulares, invariavelmente, ali, naquele pedaço de campo, jogam bem.

Será que é o Dinorah quem sempre veste a camisa quatro do Botafogo, através das explicações do Sobrenatural de Almeida, do sempre presente Nelson Rodrigues ? Não. O Sobrenatural de Almeida é tricolor. Estamos tratando de algo em branco e preto, intercalados em listras verticais e com uma estrela solitária em cima do coração; preto no branco, como uma verdade absoluta.

Ouça o Hino do Botafogo

João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações - SP
Tel.: (55 - 21) 3325-1500, 3325-8641 e 9984-6846

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