Crônicas do Cotidiano

O que é talento?

Duas histórias

Talento não se define, não se explica; testifica-se, detecta-se. Contudo, não podemos fugir dos ditames da teoria; talento é aptidão natural ou habilidade adquirida.

Talento me sugere uma inteligência e uma cultura específica excepcionais. Vou lhes contar duas histórias que definem talento.

Tinha tudo para dar errado

O talento em questão nasceu e morreu em Nova York - EUA, (1925-1990). Durante o maior tempo de sua vida, conviveu com uma segregação racial absurda, cruel, quando, em todos os lugares públicos dos Estados Unidos da América, se liam avisos que ali, aqui e acolá era proibida a entrada de negros.

Esse talento era pobre, feio, esmirrado e caolho - perdeu o olho esquerdo num desastre de automóvel. Com tudo isso, foi considerado o «Rei do Show Business Mundial». Foi amigo de presidentes, de governadores, e de outras autoridades.

Idolatrado pelo público e por colegas de profissão, entre eles Frank Sinatra, seu fã de carteirinha. Foi reconhecido mundialmente, apenas, pelo seu TALENTO.

Cantor, ator, sapateador, humorista, imitador, músico, etc. Um showman na verdadeira expressão da palavra. Trabalhou com sucesso em todas as mídias: rádio (que foi o princípio), teatro, cinema e televisão. Como cantor vendeu milhões de cópias nos quatro cantos do mundo.

Costumava iniciar os seus shows - cada dia, um diferente - imitando um personagem qualquer da vida pública norte-americana ou internacional, que, naquele exato dia, estivesse em evidência nas páginas dos jornais. Não se repetia. Como músico, era comum, durante o show, tocar todos os instrumentos da orquestra. Talento é isso aí...

Era o Sammy Davis Jr., é lógico que você matou a charada...

Uma orquestra diferente

Já de Zaquia Jorge, creio que você nunca ouviu falar. São poucos aqueles que a conheceram.

Vamos, então, à segunda história: a de Zaquia. Durante os dias de carnaval de 2001, estava assistindo na TV uma apresentação da Orquestra de André Rieu. Não sabia nada sobre ela, tampouco de seu regente. Hoje sei e lhes darei uma dica, lá no final da crônica.

Chamou a atenção, isto sim, o fato de que tal orquestra é composta de um número inusual de mulheres, tocando de tudo, de trompete à gaita de fole... O público extasiado - não sei de que nacionalidade era -, de pé, aplaudia demoradamente a cada música.

O teatro era enorme. Coisa de primeiro mundo. O público, descontraído, sempre casais, dançava nos corredores e na frente, junto ao palco. Desfilaram as músicas mundialmente mais conhecidas.

A orquestra ia, indefectivelmente, de um país para outro. Tudo milimetricamente perfeito. Naquela orquestra, quem toca pandeiro, cuíca ou qualquer outro instrumento, podem crer, é pós-graduado no local de sua origem. A respeito disso, mais adiante, conto uma história de uma «austríaca» e seu apito.

A hora e a vez do Brasil

E a orquestra ia passeando pelo mundo, ao som das melhores valsas vienenses, clássicos de filmes norte-americanos, música escocesa, francesa, inglesa, tangos, rumbas, só sucessos internacionais.

Até que, como não poderia deixar de ser, foi anunciada na telinha uma Sinfonia Brasileira. Lenita - para quem não a conhece, minha mulher - e eu ficamos na expectativa das músicas brasileiras que eles iriam tocar.

Primeira e única «mancada» do André Rieu: começou a Sinfonia Brasileira com «La Bamba» que, com absoluta certeza, brasileira não é. Como sabemos, «La Bamba» é do cancioneiro mexicano e de domínio público. Mas, tudo bem...

Depois, veio a «Aquarela do Brasil», de Ary Barroso, o que era de se esperar. Lenita já falava de «Garota de Ipanema», de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e outros hits tupiniquins, jurando que a orquestra iria terminar a apresentação, apoteoticamente, com «Cidade Maravilhosa» de André Filho. Aí veio a primeira surpresa: a terceira música do «pot-pourri» foi «Tico-tico no fubá», de Zequinha de Abreu.

A quarta e última, para surpresa ainda maior, foi «Madureira Chorou», da autoria da dupla Carvalhinho e Júlio Monteiro, acompanhada de um apito de escola de samba, tocado por uma mulher com pinta de austríaca, mas com um talento para nenhum mestre de bateria do grupo especial da Marquês de Sapucaí botar defeito. Isso mesmo: «Madureira Chorou», com a tal «austríaca» arrebentando no apito, lembrando-me até o falecido Mestre André, da «Bateria Nota Dez» de Padre Miguel.

E o show da Orquestra do André Rieu terminando, a platéia em delírio, aplaudindo de pé, feliz da vida, e os créditos passando rápido pelo vídeo ao som do pranto de saudade em homenagem à vedete de Madureira.

Por quem chorou Madureira

É aqui que entra Zaquia Jorge. No final dos anos 50, eu tinha uns 15 anos. Sempre que passava pelo bairro de Madureira, local de comércio forte, espichava os olhos para a fachada do Teatro de Revista Madureira, que ficava em frente à Estação que lhe emprestava o nome. Na fachada, eram exibidas várias fotos das vedetes em trajes, então, ditos sumários.

Além de bela e talentosa atriz, Zaquia Jorge era também a dona do teatro, uma vedete do teatro rebolado, que usava uns maiôs inteiros, um verdadeiro escândalo na época, mas que, se hoje usássemos o mesmo pano, daria para fazer uns quatro biquínis para as senhoras mais distintas da nossa sociedade.

No dia 22 de abril de 1957, uma fatídica segunda-feira, tradicional dia de folga dos artistas de teatro, Zaquia foi à praia da Barra da Tijuca, então selvagem e deserta, para um banho de mar. Nesse dia, aos 32 anos, Zaquia Jorge, uma belíssima e talentosa morena de sangue árabe, morreu afogada. Mudaram o nome do teatro para Teatro Zaquia Jorge, que tempos depois fechou as portas, de certo, sentindo a falta da grande estrela.

Era Joel de Almeida quem cantava «Madureira Chorou», batucando em seu chapéu de palha dura, esse samba exaltação, esse panegírico post-mortem de Carvalhinho e Júlio Monteiro, lançado para o carnaval de 1958, homenageando a bela Zaquia.

Não me lembrava mais do Joel de Almeida, tampouco da dupla de compositores; foram os meus amigos Hamiltom Couto e José Luiz Aromatis, ambos de Nova Ipanema (Barra da Tijuca – Rio), que gostam e entendem muito da verdadeira MPB, que encontraram os nomes deles em seus alfarrábios.

O talento faz a diferença

Estas duas simples histórias tem tudo a ver com a força irresistível do talento para quebrar barreiras tidas como intransponíveis. Você, por certo, se lembrará de outras, tão inspiradoras quanto estas que contei, para instigar sua imaginação. Se lembrar-se de alguma, não deixe de me contar, também.

Fechando a matéria: para mim, têm talento aqueles que conseguem, pela força de suas obras, serem eternamente lembrados pelo mundo afora. Não importa se sua fama é regional ou internacional. Eles acreditaram em si, deram tudo de si para mostrar que eram excepcionais no melhor sentido da palavra. E conseguiram.

Embora tenhamos muitos talentos vivos para exemplificar, como o do maestro André Rieu; ou outros que já nos deixaram, como o de Zaquia Jorge, temos que ressaltar aqui o talento de Sammy Davis Jr., que tinha tudo para dar errado na vida; e da dupla Carvalhinho-Júlio Monteiro, que compôs um despretensioso «sambinha», que encanta até estrangeiros e, mesmo nos lembrando a morte de uma bela atriz, consegue, sempre que a ouvimos, encher de lágrimas nossos olhos e de alegria os nossos corações.

Madureira chorou...

«Madureira chorou / Madureira chorou de dor / Quando a voz do destino / Obedecendo ao Divino / A sua estrela chamou / Gente modesta / Gente boa do subúrbio / Que só comete distúrbio / Se alguém os menosprezar / Aquela gente que mora na Zona Norte / Até hoje chora a morte da estrela do lugar / Só eu não posso chorar / Madureira chorou ...»

POST SCRIPTUM

Esta crônica me tem rendido dividendos emocionais de que jamais poderei esquecer. Todos os textos constantes dos dois sites - técnicos ou sobre amenidades - têm merecido comentários favoráveis dos amigos.

Vou lhes falar apenas de dois belíssimos retornos.

O primeiro ocorreu logo que a crônica foi para o ar, alí pelo mês de março de 2001. Veio de um artista plástico brasileiro, radicado em Portugal há mais de dez anos, que de lá me telefonou, dizendo que foi levado literalmente às lágrimas, ao ler a crônica. Disse-me que morava num bairro próximo à Madureira, no Rio de Janeiro, e que teve uma infância muito pobre. Quando menino, vendia balas e amendoim torrado nas ruas, ajudando no orçamento doméstico e fazia ponto em frente ao Teatro de Revista Zaquia Jorge. Isso, lido na Europa, tão longe de Madureira, no mínimo, dá nó na garganta. A emoção dele, diante de um texto meu, externada em uma ligação internacional, por si só, já justifica a existência dos sites.

Vamos ao segundo retorno emocional. Em janeiro de 2002, recebi uma mensagem eletrônica de uma parenta de Zaquia Jorge, que falou-me da agradável surpresa ao ver que a brilhante atriz ainda era lembrada, depois de 45 anos de seu falecimento.

Ficou faltando, agora, apenas a dica que eu prometi dar sobre a orquestra. Simples. Apenas clique aqui e terá uma agradável surpresa musical.

João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações - SP
Tel.: (55 - 21) 3325-1500, 3325-8641 e 9984-6846

www.pitoresco.com/consultoria e www.consultarte.com

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