Crônicas do Cotidiano

Carcarás, tetéus, chupins e andorinhas nordestinas

O carcará

Carcará, todo mundo conhece do cancioneiro popular: pega, mata e come... Grosso modo, trata-se de uma espécie da família dos falconídeos, ave muito encontrada na América do Sul. Carcará vem de carancho, que, por sua vez, vem do tupi ka’rãi, que quer dizer arranhar, rasgar com as unhas.

O nordestino tem fundadas razões para caçá-lo, sem economizar munição, já que o filho de uma égua come de tudo: galináceos e assemelhados, todos os tipos de pássaros, borregos, vitelos, até os calangos, que, nas épocas de absoluta míngua, são disputados pelo sofrido povo do sertão.

O tetéu

Já o tetéu, outra ave, só os nordestinos conhecem. Sabe o que é um tetéu? A origem do nome é onomatopaica, pois o vocábulo imita o seu canto. Haveria para ele definições bem mais científicas, mas fico com a de um amigo paraibano:

"O tetéu é um passarinho cinza, preto e branco, com o bico, pernas e esporões encarnados, que não drómi e - com a zueira que faz - não deixa o povo drômir, não dá pra cumê de vez que não cunzinha e nem pega sal. Carne dura da mulesta, não serve para nada."

Mais para o sul do país, o tetéu muda várias vezes de nome: quero-quero, tero-tero, teréu-teréu, téu-téu, terém-terém, gaivota preta, espanta boiada e chiqueira.

Que pássaro é esse?

Da dupla: Tetéu & Carcará - que até daria um excelente nome de repentistas nordestinos -, o povo tem conhecimento e dela se defende bem.

Porém, há no nordeste um terceiro "pássaro", que vem flagelando o povo de lá, para o qual ainda não encontraram remédio. A sorte - já que Deus nunca desampara -, é que, misturadas com eles, existem algumas andorinhas, que, em pequeno número, não conseguem fazer verão...

Mas, voltando ao outro tal pássaro, trata-se de uma ave de arribação - que, de vez em quando, sempre nos longos finais de semana, de per si ou em pequenos grupos, faz o longo trajeto do planalto central para o nordeste e vice-versa, mais vezes de quatro em quatro anos...

Muitos deles fazem ninhos mais para sul, em balneários famosos ou em serras chiques. Alguns também têm ninho no hemisfério norte e passam - literal e literariamente - por cima do problema, e vão para outras plagas. Até mudam de trinado, na hora de retornarem: Ai quenti bé-livi ou, então, Jé sui dé-solê...

Como é que fui esquecer do nome desse pássaro?

Seria o chupim?

Mas o pássaro, em questão, não é monopólio do nordeste, tem dele em qualquer lugar do Brasil.

Seria o chupim? O quê? Você não sabe o que é isso? Didaticamente, o chupim é um pássaro preto, cuja fêmea tem como idiossincrasia pôr os seus ovos no ninho do tico-tico que, inadvertidamente, lhe cria os filhotes.

O chupim, também chamado de vira-bosta, por ser comum freqüentar os currais das fazendas, alimentando-se de todo o tipo de sementes, principalmente o milho que recolhe das fezes do boi, assim como costuma causar sérios danos aos arrozais na época das colheitas.

Nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul adjetiva-se com seu nome o marido de professora, quando ele vive à custa da mulher. Por extensão, diz-se da pessoa inoperante, que vive sem fazer força, vivendo das sobras dos outros ou se aproveitando do esforço alheio.

Mas como é o nome dele? É, deve ser mesmo o chupim...

A minha homenagem às andorinhas

Esta crônica, é uma homenagem que presto ao valoroso povo nordestino, honesto e trabalhador.

Assim, vai aqui o meu respeito e admiração a todos Cíceros e Cíceras, Severinos e Severinas, Josés e Josefas, Antônios e Antônias, Marias, Pedros, Raimundos de todos os tipos, e até os Alfredos, assim como outros nomes que, porventura, possam ter.

E isto, sem me esquecer de homenagear as andorinhas, pedindo a Deus que as façam reproduzir, ao ponto de serem suficientes para fazerem muitos verões de abençoadas chuvas para o nordeste.

João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações - SP
Tel.: (55 - 21) 3325-1500, 3325-8641 e 9984-6846

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