Crônicas do Cotidiano

«Tobe or not Tobe», eis a questão

Tobe, o que é isso?

Tobe é o nome do cachorro que apareceu lá em casa. Casa, é como a maioria - até aqueles que moram em apartamento, como eu - se refere à própria moradia.

O cachorro aparece nas nossas vidas sempre com uma historinha já pronta, mas aparece e é fato consumado. Lá está o Tobe, que já veio com nome, presumo que tenha sido dado pelo Brunel Delano, um ser imaginário que também habita a nossa casa e é usado nas minhas baboseiras literárias, mas com a grande vantagem de não fazer xixi no tapete ou aromatizar o elevador, tampouco trazer incômodos aos vizinhos.

O pretenso dono do cão

Quem chega com o cachorro é sempre o pretenso dono dele, cheio de histórias e amor para dar... Depois, passa a incumbência de lavá-lo, alimentá-lo, vaciná-lo e a levá-lo ao veterinário, assim como aos diversos passeios fisiológicos, para alguém que quase sempre é contra, ou melhor, é a favor do cachorro.

É a favor, por que acredita que lugar de cachorro é no habitat dele, ou seja, num quintal, com uma parceira de sua espécie, para que tenha um vida normal. A maioria que gosta de cachorro não vê o lado do animal.

Já vi que esse cara não gosta de cães...

Pelo contrário, ninguém gosta mais de cães do que eu. Em toda a minha vida, tive tão-somente um: chamava-se Tarzan, um policial de pelo duro, muito forte, que deixou seus genes por toda a nossa rua e adjacências.

Morávamos no Méier, numa casa com um quintal enorme, todo arborizado com pés de carambola, sapoti, tamarindo, manga espada; que saudades... Além desse paraíso, o Tarzan era o dono da rua. Cachorro, naquela época, tinha vida social, vivia impunemente na rua, sem coleira ou mordaça. Os cães de todo mundo viviam na rua. Se você não acredita, azar seu; aliás, duplo azar, já que não viveu naquela época, tampouco onde vivi a minha infância.

E a carrocinha?

A carrocinha pegou três cachorros de uma vez, a carrocinha pegou três cachorros de uma vez, tralalá que gente é essa, tralalá que gente má. Lembram dessa cantiga de roda?

Durante toda a minha infância e adolescência, jamais tive notícia de que um cachorro tivesse mordido alguém na nossa rua. Cachorro ia para rua pegar cachorra e brigar com os machos concorrentes, depois voltava para casa, que era onde estava o angu com bofe, maná tradicional dos cães naquela época. Ração? Ninguém sabia o que era isso...

Um dia pintou a carrocinha de cachorro e a rua ficou em pé de guerra, todo mundo de barra-de-ferro na mão. Os caras foram embora e voltaram com os «meganhas» fardados de cáqui, montados em cavalos. A turma encarou e o pau quebrou. Resultado, todo mundo foi parar na delegacia do Jardim do Méier. Apareceu um vereador, que conversou com o Delegado, e ficou tudo bem. Esse negócio do «jeitinho» vem de longe...

Essa passagem me marcou tanto que, quando via os «meganhas» em cima dos seus enormes cavalos, do alto dos meus nove anos de idade, dedo em riste, dizia-lhes em tom ameaçador:

- Vou chamar o vereador, hein...

Obviamente, que os policiais não entendiam nada e iam em frente.

De fato, no antigo Distrito Federal, nos anos 50, os vereadores tinham muita autoridade, «prendiam e mandavam soltar...»

A importância dos cães

Nessas histórias e, decerto, outras tantas que vocês têm para contar, é que se vê a importância dos cães na vida das pessoas.

Sei de fatos reais em que a vida das pessoas giram em torno dos seus cães: escolha de residência, recusa de viagens ao exterior, separações de casais, quando a mulher opta pelo cachorro ou vice-versa, e coisas que tais.

Por que tanta fidelidade aos cães?

Não é sempre que nossos familiares abanam o rabinho para gente... Estou mentindo?

Todo mendigo tem um cachorro. Você já viu um cachorro mudar de dono? O do mendigo não troca o dele nem por um açougueiro milionário. Aceita a carne e os ossos, mas volta para o mendigo.

Em pequenos povoados de todo o mundo, é comum o cachorro acompanhar o caixão de seu dono ao cemitério, se recusar a abandonar a campa, passando a viver lá, como que esperando que ele saia dali um dia...

E a história do seu cachorro?

- Meu cachorro?! Que cachorro?!

- O Tarzan, o único que você teve!

Vocês já notaram que esse cara que está dialogando comigo, é o Brumel Delano, o meu alter ego.

Mas, como eu ia dizendo, nossa casa tinha um terreno muito grande. A casa começava com uma escadaria que passava por um jardim e chegava à varanda. Nesse plano ficava a casa propriamente dita, bem no centro do terreno. À direita, mais uma escadaria que dava para o quintal onde havia as tais árvores frutíferas.

O Tarzan transitava por todo o terreno, mas sempre estancava nas diversas soleiras das portas. Dentro de casa, jamais. Era o meu companheiro para tudo. Não tinha a menor intimidade com o Zezinho, meu único irmão, sete anos mais velho do que eu. Dona Amália, minha mãe, é quem lhe servia o angu com bofe. Meu pai, me parecia, não dava a menor bola para ele. Obviamente, o Tarzan era meu.

A idade chega para todos

Os anos se passaram, eu e Tarzan estávamos com cerca de 15 anos. Eu em pleno vigor e o Tarzan, aos poucos, ia ficando cada vez mais cego e paralítico. Primeiro de um olho, depois das patas traseiras, depois o outro olho atacado por catarata e ia o bicho definhando... Mesmo assim, subia e descia a escadaria que dava para o quintal arrastando-se pela parede, o que era denunciado pela mancha do encardido que seu corpo formava, do quintal à varanda, sua monotrajetória de final de vida.

Um dia, às 10 horas da noite, como de praxe, depois de um programa do Ibrahim Sued na televisão, onde ele lia - gaguejando sem parar - as notícias mais importantes daquele dia, meu pai disse à minha mãe que iria estender o pano para o Tarzan.

Esqueci de lhes dizer que meu pai, sistematicamente, ao longo dos possíveis 15 anos de vida do Tarzan, às 22 horas, estendia-lhe um pano de chão, na varanda, e o bicho ficava ali olhando para o portão principal, que não tinha cadeado nem fechadura. De vez em quando, ele dava uma volta em torno da casa e seus passos eram ouvidos através das janelas que, como era costume, só se fechava quando fazia frio. Bons tempos, aqueles...

Retornando: ao término do programa do Ibrahim Sued, minha mãe disse ao meu pai:

- José, infelizmente, o Tarzan não está na varanda. Hoje, pela manhã, pedi ao Severino - nosso caseiro -, que o levasse lá para o quintal. Agonizou o dia todo, por essas horas, já deve ter morrido.

- Mas o Tarzan está na varanda, estou ouvindo os passos dele - disse meu pai, levantado-se para abrir a porta que dava para a varanda.

E, creiam, lá estava o Tarzan de pé, firme nas quatro patas. Meu pai estendeu o pano, ele se deitou e nos estertores de sua agonia esticou as quatro patas e, naquele momento, morreu.

Nunca tive um cachorro, Tarzan era do meu pai e eu não sabia.

E o Tobe?

O Tobe não precisa de fêmea, tosa, banho, comida, vacina, veterinário e de passeios fisiológicos. É o cachorro virtual do Brumel Delano, que, como o dono, é um ser imaginário que também habita o nosso apartamento. Ambos dormem no meu computador, e são usados nas minhas baboseiras literárias.

João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações - SP
Tel.: (55 - 21) 3325-1500, 3325-8641 e 9984-6846

www.pitoresco.com/consultoria e www.consultarte.com

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