Crônicas do Cotidiano

Refeições inesquecíveis

Uma refeição, antes de nutrir o corpo, deve enlevar o espírito. Para tal, precisa reunir três fatores importantes: ingredientes manipulados com amor, companhias agradáveis e se estar tranquilo, em paz com a vida.

Quando alguém fala em refeição inesquecível, sempre me lembro de situações de extrema simplicidade: do feijão com arroz da minha mãe; das mangas-espada que devorava, quando guri, trepado no telhado ou na mangueira lá de casa; dos ovos caipiras estalados com arroz singelo, que degustei na casa da minha prima Elizabeth do Bem, em Conselheiro Lafaiete-MG: o farto lanche na casa do casal Cléa e Luiz Miguez; da roupa velha da Elza Neves - uma releitura da feijoada do dia anterior que, quase sempre, fica melhor do que na véspera; ou das ovas de peixe que, modéstia à parte, sempre preparei para os amigos – hoje, lhes prometo passar a receita.

Lembranças bem saborosas

Há oportunidades em que o requinte e a criatividade falam mais alto, como por exemplo: o fenomenal cozido preparado pelo Antônio da Vera Oliveira, do ‘queijos e vinhos’ organizado pelo Augusto Carlos Gonçalves ou do inacreditável javali com arroz selvagem preparado pelo Mestre Cuca Tuninho – menos conhecido como Antônio Valentim Monteiro. Os jantares e almoços oferecidos pelo casal Mônica e William Gregg primam pela originalidade. São personalíssimos! Nunca se imagina o que será servido na oportunidade e o casal acerta sempre.

Como se vê, não há necessidade de que a refeição inesquecível seja feita no restaurante da moda, tampouco que o vinho custe os olhos da cara. Muitas vezes - ambos os vinhos portugueses -, um Borba (safra 94) desce melhor que um caríssimo e também fantástico Barca Velha...

Já participei de fantásticas ágapes, por exemplo, no Porrinhódromo – uma espécie de Principado de Mônaco encravado na Ilha da Fantasia –, localizado na área esportiva e social do Condomínio Nova Ipanema, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde moro, onde amigos jogam conversa fora. Nos finais de semana, tem-se a oportunidade de saborear, entre outros pratos especiais, um delicioso bacalhau ao Ig, da lavra do talentoso Dom Ignácio, um cozinheiro que vale ouro.

Olha o mapa da mina

Vamos, então, a uma dica que a sabedoria popular sempre aconselha: onde você estiver, procure consultar os da terra sobre onde se pode comer do bom e do melhor. Há, em todas as cidades do mundo, restaurantes sem luxo ou sofisticação, que proporcionam refeições inesquecíveis. Muitos desses restaurantes, que no Rio de Janeiro até os meados do Século 20 eram chamados de casas de pasto - em Portugal, ainda há alguns restaurantes assim intitulados -, servem, com muito talento, o que se pode sem muito exagero chamar de maná celestial.

Conhecendo o Rio de Janeiro pelo estômago

No Rio de Janeiro, posso citar: o ‘Filé de Ouro’, no Jardim Botânico, Zona Sul. O ‘Bar da Salete’, na Tijuca, Zona Norte. O ‘Shirley’ no Leme, Zona Sul. ‘O Camarão Arte Bia’, em quatro endereços: Tijuca, NorteShopping, Jacarepaguá e São Gonçalo. Na Barra da Tijuca, posso citar: o ‘Filé de Ouro’, no Jardim Botânico, Zona Sul; o ‘Bar da Salete’, na Tijuca, Zona Norte; o ‘Shirley’ no Leme, Zona Sul; ‘O Camarão Arte Bia’, em quatro endereços: Tijuca, NorteShopping, Jacarepaguá e São Gonçalo. Na Barra da Tijuca, aconselho uma cantina italiana imperdível, ‘Mamma Angela’, que apresenta uma comida para ninguém botar defeito com clima de momento mágico – fica junto ao Alfa Barra, na Sernambetiba. João Carlos Filho e minha nora Paula gostam muito de comer lá. Ainda na Barra da Tijuca, indico o ‘La Nonna’, no Shopping Esplanada da Barra, onde se come muitíssimo bem e – segundo meu filho Cadu e minha nora Priscila, que são fãs de carteirinha – tem um tempero inigualável. Subindo a Serra de Petrópolis, em Araras, na Estrada Bernardo Coutinho, 3575, Vale da Aldeia, há o ‘Oliveiras da Serra’. Você vai ficar em dúvida na hora de escolher: bacalhau arrepiado, bacalhau da serra ou bacalhau crocante? E os doces portugueses? Quem comeu no ‘Oliveiras’ sempre volta. De retorno ao Centro do Rio de Janeiro, quem quiser comer um peixe imperdível, que vá ao ‘Rio Minho’, localizado desde 1884 no início da Rua do Ouvidor, pertinho da Praça XV – o mais antigo restaurante em atividade no Rio de Janeiro. Não posso me esquecer de onde tenho feito ultimamente as minhas refeições rápidas no Centro do Rio de Janeiro. Às vezes, até almoço lá. Refiro-me ao ‘Fórum Café’, que chamo carinhosamente de ‘Lanchonete da EMERJ’. Fica no 4º andar do Fórum Central do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Comida gostosa, manipulação dos alimentos com absoluta transparência, atendimento generoso, lugar tranquilo, em tudo irrepreensível, ideal para o ‘chá das cinco’, mas sei de quem toma café da manhã lá.

O que diz ainda o meu consultor gastronômico

O meu amigo Raimundo Queiroz que, além de conhecer os restaurantes, sabe os pratos do dia de cor e faz disso um esporte – não se trata de um hobby, mas sim da prática de um esporte -, cita como imperdíveis seguintes: o ‘Adônis’, na esquina das ruas Prefeito Olímpio de Melo com São Luiz Gonzaga, em Benfica; o ‘Beco do Carmo’, na rua que lhe empresta o nome, no Centro; a ‘Adega do Pimenta’, em Santa Teresa, onde se tem de encomendar o seu fantástico pernil com 24 horas de antecedência; o ‘Cais do Oriente’, atrás do Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro; o ‘Penafiel’, na Rua Senhor dos Passos, quase esquina da Avenida Passos. Disse-me que deixava de apontar o ‘Gero’ pela obviedade e suspeição – já que lá ele é tratado como um rei. E nunca esquecendo o ‘Degrau’, o melhor familiar da Zona Sul. Agora falo eu, João Carlos, entre outras iguarias, come-se no ‘Restaurante Degrau’ um linguado com molho de alcaparras inesquecível.

O meu amigo Queiroz faz uma pausa, dá uma respirada e dispara: em Búzios, balneário famoso internacionalmente – aquele ao qual a Brigitte Bardot deu ainda mais notoriedade –, aconselha o ‘Atelier Quintal’ que é exclusivíssimo, só com reserva, conhecido até no Exterior; o ‘Aldeia 77’, na Praia de Geribá, que serve um prato indescritível – tábua de frutos do mar, legumes e frutas, que vale cada centavo por ele cobrado; o ‘Sawasdee’, um tailandês de excelente nível, e ‘Bar do Zé’, o mais badalado de Búzios, com um risoto de frutos do mar imbatível.

Em São Paulo, as obviedades do ‘La Tambuille’ e do ‘D.O.M.’ – Alex Atalla é reputado um dos 50 melhores cozinheiros do mundo – e, também, o ‘Freddy’, com mais de 70 anos de existência, que tem um atendimento espetacular. Mas o must do must paulistano para o Queiroz é o ‘Il Nuovo Sogno Di Anarello’, restaurante do famoso italiano e cidadão paulistano Giovanni Bruno. Quando ele recebeu o título, o prefeito perguntou o que ele queria, e insistiu. Ele então, humildemente, perguntou se podia mudar o nome da pequeníssima rua onde está o restaurante. Ela hoje se chama IL SOGNO DI ANARELLO. O restaurante só abre para o jantar, e de segunda-feira a sexta-feira. Sábados e domingos: fechado.

No Chile, ainda recomenda o meu guru para assuntos gastronômicos, o melhor restaurante de Santiago é o ‘Europeo’. Só indo lá para saber: INDESCRITÍVEL!

Ainda os paulistas e os demais

Retomando as rédeas da minha crônica, em São Paulo, gosto do ‘Famiglia Mancini’, lá todos o conhece, com suas fantásticas entradas e minutas impróprias para quem quer perder peso... Como deixou claro o meu amigo Queiroz, a cidade de São Paulo é pródiga em restaurantes desse tipo, aliás, de todos os tipos, gostos e bolsos.

Em Belo Horizonte, uma visita ao ‘Xapuri’, um restaurante tipicamente mineiro localizado na Pampulha, é imperdível: depois de uma comida de gosto inconfundível, dá vontade de aplaudir o serviço de pé. No final, vários garçons fazem fila para colocarem sobre a mesa 38 (eu estou falando trinta e oito!) espécies de sobremesas, que dão vontade de chorar pela impossibilidade física e estomacal de se provar todas. Aconselho que voltem, noutro dia, só para comerem as sobremesas...

Obviamente, que existem outros restaurantes imperdíveis em todas as cidades citadas. Em outras capitais brasileiras há também restaurantes nos mesmos moldes. Como foi dito, é só procurar informações com os da terra

Que não se deduza, pela falta de luxo e sofisticação de alguns dos restaurantes citados, que sejam baratos - ou caros -, pois, para se comer muitíssimo bem, paga-se, em todos eles, um preço muitíssimo justo.

*   *   *

Conforme prometi, eis a receita de ovas de peixe à João Carlos.

Quando for à feira ou à peixaria não se esqueça de pedir ao peixeiro para levar as suas ovas, quando limparem o seu pescado.

Ingredientes:
Ovas de quaisquer peixes, na quantidade que conseguir comprar, limão, azeite, alho, cebola, tomate, pimentão vermelho, sal e pimenta dedo de moça. Um pouco de arte, criatividade e prazer em cozinhar também são fundamentais. Para acompanhar a degustação: pão francês ou árabe. Pode-se, também, servir a ova com arroz singelo - aquele puro, sem tempero aparente. O tempero deve estar presente é no sabor... Cebola cozida, meus amigos, só deve aparecer na sopa de cebola, não é não?

Molho que acompanha:
Corte a cebola em pequenos pedaços e coloque-a em uma tigela com azeite e um pouco de sal. Cubra a tigela com papel laminado e coloque na geladeira até a hora em que a ova for servida. De preferência, prepare o molho concomitantemente ao preparo das ovas.

Bebidas que acompanham:
Vinho tinto ou branco, uísque, caipirinha, cerveja ou suco de uvas integral, sem adição de água, como se fosse um vinho sem álcool.

Modo de preparar:
Basta apenas uma panela e um escorredor para se fazer tudo. Sempre em fogo brando - a exceção fica por conta do cozimento inicial, coloque água na panela para ferver. Nela, esprema um ou dois limões e sal a gosto. Coloque as ovas para cozinhar nessa água. O limão serve para tirar o cheiro de peixe e é fundamental. Cozidas as ovas, escorra a água e as deixe no escorredor enquanto você fará, na mesma panela, um refogado com azeite, alho, cebola, tomate, pimentão vermelho. Sal e pimenta dedo de moça, conforme o seu gosto apreciar. Estando o refogado pronto, retire os temperos e fique só com o azeite temperado. Corte as ovas ao meio, se forem pequenas, ou em pequenas rodelas de seis centímetros, mais ou menos, para que o tempero possa nelas penetrar. Quanto menos as ovas esfarelarem, melhor será. Coloque as ovas para dar uma rápida passada naquele azeite temperado e, depois, cubra as ovas com azeite novo, conservando o azeite que está temperado, sempre em fogo brando até que fiquem douradas. Não será uma fritura, mas sim um cozimento, complementar e lento, no azeite temperado ao qual foi misturado o azeite novo. Quando começar a dourar, retire o azeite saturado e nele dê um fim ecologicamente correto. Após, coloque a ova para dourar definitivamente no forno com calor brando, até a hora de servi-la.

Sirva as ovas num réchaud para mantê-las aquecidas e ao servir-se, quando estiver em seu prato ou no seu pão, regue-as com azeite, colocando o molho de cebola crua, que está na geladeira (lembra-se?). Se gostar de mais pimenta ou sal coloque-os a gosto. Coma as ovas acompanhadas da bebida que preferir e bom apetite.

Se tiver dúvidas, me telefone. Se não tiver companhia para comer – e morar perto –, não se esqueça de me convidar.

Importante:
Deve-se degustar essa iguaria, por ser uma comida de sabor forte, quando se sentir saudades dela...

João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações - SP
Tel.: (55 - 21) 3325-1500, 3325-8641 e 9984-6846

www.pitoresco.com/consultoria e www.consultarte.com

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