Crônicas de Nova Ipanema
Você tem medo da Internet ?
A idade para se começar

De agora em diante, vai ser muito difícil às pessoas viverem à margem dos computadores e da Internet. Iniciei tarde - depois de muito relutar -, aos 53 anos. Mas vamos direto ao fato gerador da minha conversão ao veículo da rede mundial.
Um dia, encontrei um menino de 83 anos que andava meio sumido.
«Como é que é Thomaz, sumiu?»
«É meu querido amigo, comprei um brinquedo novo: um computador.»
«Thomaz, você consegue mexer naquele negócio, rapaz?» (O comportamento do Thomaz nos estimula a vê-lo sempre como um rapaz...)
«Claro, é muito fácil,» respondeu ele.
Fui para casa arrasado. Afinal, tinha um livro na cabeça - o Manual do Mercado de Arte -, e precisava passá-lo para o papel, mas, aos 53 anos, me achava velho para esse tipo de tecnologia. Enchi-me de coragem e comprei um computador. Depois de um ano, sem cursos ou qualquer outro tipo de orientação - o que eu hoje não aconselho a ninguém -, o livro estava pronto.
Apesar de tudo mais
Ao que me parece - e aos outros amigos dele -, Thomaz, pelo menos nesses 22 anos que o conheço, não faz muito por onde ser o longevo saudável que é: acorda e dorme tarde, pega sol da tarde, gosta de "beber todas", com ou sem gelo - mas bêbado nunca o vi -, sempre comeu fora de hora e, principalmente, aqueles salgadinhos de lanchonete, pelo menos nesses longo tempo em que sou seu incondicional amigo.
O cigarro é um capítulo à parte. Até os 85 anos - depois de dar um susto na gente, no início de 1999 - fumava três a quatro maços de cigarros por dia. Agora, diz que parou... Há quem acredite nisso, em Papai Noel, coelhinho da Páscoa e, principalmente, em cegonha.
Testando a resistência
Mas vamos falar do sobredito susto. Soube que ele tinha feito uma cirurgia de próstata, em meados de 1999, isto aos 85 anos. Nada grave: em tal idade, este tipo de cirurgia é inevitável.
Para fazer de uma longa história, outra bem curta, o nosso Thomaz, logo a seguir, pegou uma infecção hospitalar. Ficou pele e osso. Recuperou-se um pouquinho e, logo após, no verão de 2000, pegou uma pneumonia, constatada quando estava numa reunião da ACNI - ele é o Presidente da Comissão de Legislação e Normas da Associação dos Condôminos de Nova Ipanema, na Barra da Tijuca - , encontro que, por tal motivo, foi adiado, de vez que ele era o relator da matéria a ser votada. Ficou, de novo, pele e osso.
Entre seus amigos era unânime a conclusão: "É uma pena, mas dessa vez o General Thomaz Câmara entrega os pontos e, pela primeira vez, vai sair da cena de guerra..." Outros, mais objetivos, diziam: "Não sei não, mas acho que o General vai morrer..."
O segredo da longevidade
Ledo engano, uns dois meses depois, já no inverno de 2000 - inverno que ficará na história como um dos mais frios que tivemos -, todo mundo agasalhado no Clube de Nova Ipanema, chega o Thomaz da sauna, gordinho, forte, saudável e sem camisa...
Após os comentários de praxe, um sai com a gracinha: «Também pudera, ele não tem mulher e nem filhos para o aporrinhar...»
Sem conferir razão à sobredita tese e, tampouco, achá-la possível - já que tenho juízo e amor à vida -, o nosso Thomaz jamais se casou. Namoradas dele, conheci muitas. Fale-se de grandes paixões, umas correspondidas outras não... Mas isso não nos interessa, porque coração é terra que ninguém pisa...
Até hoje, aos 89 anos de idade, Thomaz me manda e-mails falando em obsolescência instantânea dos objetos, em futuro, em século 21, em programação, em estudo, em treinamento pessoal, das últimas novidades da informática, etc.
Mesmo muitas vezes impactado, é este o General Thomaz de Albuquerque Câmara - meu longevo Mestre de sabedoria útil e aplicável - que conheço. Tenho um grande orgulho em sermos amigos. Que Deus lhe dê muitos anos de vida, para que ele possa passar essa vitalidade, combatividade e sabedoria à garotada cinqüentona que anda se achando meio devagar...
E você, ainda está se achando velho para mexer com computador?
Post scriptum: hoje, dia 16 de julho de 2003,
aos 89 anos, numa manhã linda de inverno carioca, com
céu azul e sem nuvens, o nosso querido Thomaz nos deixou.
Seus amigos estão tristes e enlutados. Um dia tinha
que acontecer...
João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações
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Tel.: (55 - 21) 3325-1500, 3325-8641 e 9984-6846
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