Crônicas de Nova Ipanema
O "Senhor" como tratamento de respeito
Dias antes de completar 60 anos, cabeça branca, de terno e gravata, recebi o meu certificado de sócio do "clube da terceira idade". Foi num vagão do trem do Metrô-Rio. Um rapaz com uns 17 anos, quando me viu, levantou-se e disse:
- Senhor, por favor, pode sentar no meu lugar.
Fiquei impactado; afinal, a gente sempre se julga um garotão, até que se depara com a realidade do espelho ou se encontra um amigo de infância. Porém, sob todos os aspectos, o episódio foi muito agradável e mereceu de mim um espontâneo sorriso.
Agradeci ao rapaz – ainda há quem eduque os filhos – e, nos dez minutos que separam as estações de Botafogo e da Carioca, alinhavei esta crônica.
Voltei aos meus 18 anos
Servi à pátria na Primeira Companhia de Polícia do Exército, na Vila Militar. De pronto, todos os soldados entraram para o curso de cabos, mas só três chegaram ao final. Trinta dias após, recebi as duas divisas. Resultado: daquele momento em diante, todos os soldados que incorporaram comigo passaram a me chamar de "senhor".
Aconteceu em Nova Ipanema
Tempos atrás, o meu amigo e vizinho Armando Araújo Lima, tenente-coronel da Aeronáutica, da reserva remunerada, estava comigo no clube de Nova Ipanema quando chegou o Feres José, outro amigo e vizinho com quem o Lima ainda não tinha intimidade. Olha só o diálogo:
- Olá, Feres, tudo bem? Disse eu.
- Como vai o senhor? Disse o Lima.
- Tudo bem. Respondeu o Feres e, com o seu jeito tranqüilo, seguiu o seu caminho.
E eu, estupefato, perguntei ao Lima:
- Lima, meu amigo, você chama o Feres de senhor? Ele tem menos idade do que você...
- Mas, Joãozinho, ele é general...
- Que general, Lima. General é o apelido dele no mercado de capitais...
- Você está brincando?!
Certo que se tratava de um general, sendo ele tenente-coronel da Aeronáutica, observou a hierarquia militar que o obrigava a chamar seu "superior" de senhor.
Batendo continência
Entre os civis menos avisados, o estereótipo de um oficial general é sempre o de uma pessoa austera. Contudo, a realidade é diametralmente oposta. Salvo raras exceções, os oficiais generais das três Forças são amáveis, por serem educados; sensíveis, por serem cultos; e, por tudo isso, de ótimo relacionamento social.
Mesmo assim, jamais perdem o sentido do que é justo, da ordem, e de que o respeito recíproco deve sempre estar presente, mesmo nas coisas do simples cotidiano. E tanto o Feres como o Lima, se encaixam neste perfil.
E assim, por ter "physique et psychique de rôle" absolutamente verossímeis, quem precisar de um paisano para o papel, ninguém melhor que o nosso Feres para personificar um verdadeiro general, mormente, pelo semblante de inequívoca autoridade.
Então, de boné "bico de pato", com qualquer cor ou inscrição, não há militar que lhe negue a continência.
Hoje, com idade mais compatível, fica ainda mais difícil negar-lhe a "patente". Ele me contou que, quando tinha uns quarenta e poucos anos, saindo de um elevador, uns amigos se dirigiram a ele chamando-o de general. Uma senhora, muito surpresa, lhe perguntou:
- O senhor, tão novo, já é general?
E o nosso Feres, apressado para o almoço com amigos, respondeu:
- É. Sou sim, senhora...
E ele me explicando: João, em tais circunstâncias, dava para explicar alguma coisa?
João Carlos Lopes dos Santos
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