Crônicas de Nova Ipanema

Diante dos nossos olhos

O essencial é invisível para os olhos. A sentença está lá no "O Pequeno Príncipe" de Antoine de Saint-Exupery. É uma realidade, já que não percebemos tesouros e, muitas vezes, neles até tropeçamos.

Mesmo que você não more em Nova Ipanema, não deixe de ler esta crônica, pois vai tirar dela muito proveito, onde quer que more ou trabalhe.

Decerto, você vai achá-la laudatória - no que terá plena razão -, mas concluirá que ela é absolutamente verdadeira.

Nova Ipanema

Nova Ipanema é o primeiro condomínio intramuros da Barra da Tijuca. Uma comunidade com cerca de 3.500 habitantes, que data de 1977. É o que poderíamos chamar uma grande família composta de moradores, ex-moradores - que um dia hão de voltar -, visitantes, funcionários e prestadores de serviços diversos. Todos eles compõem a "Nova antiga maneira de viver", a "Ilha da Fantasia" ou, como já escrevi, "uma espécie de Principado de Mônaco, encravado na Barra da Tijuca".

A decisão será exclusivamente sua

Calcula-se que, ao todo, cerca de 200 pessoas trabalham para fazer Nova Ipanema funcionar e que, de uns tempos para cá, indubitavelmente, tem funcionado muitíssimo bem. Responda rápido:

1. o que você acha, como um todo, dos funcionários de Nova Ipanema?

2. Qual deles você elegeria como sendo o melhor?

Se sua escolha recaiu sobre algum funcionário do seu edifício, de um outro, da segurança, do serviço de portaria - que jamais funcionou tão bem como hoje - , da marina, da balsa, da sauna, piscina, do ônibus, da administração, do porrinhódromo, do tênis, da estação de tratamento de esgoto, da jardinagem, qualquer uma pessoa que você tenha escolhido, acertou. De fato, é ela.

Chegando perto da perfeição

Tempos atrás, falava-se muito em segurança em nosso condomínio. Hoje, se comete a indelicadeza coletiva de não se tocar mais no assunto. Embora, também, ninguém se lembre dele, há um gerente de segurança em Nova Ipanema. Você sabe o nome dele? Essa é outra indelicadeza coletiva. Mas, é assim mesmo, agente de segurança é como juiz de futebol, quando ninguém sabe o nome dele é sinal que está apitando o jogo muito bem. Por isso, duvido que sua escolha já tenha recaído sobre ele ou um dos 56 agentes vigilantes. Agora, levantada a lebre, é possível que você altere a sua escolha.

O mesmo poder-se-ia falar do serviço do nosso ônibus. Todos os motoristas e fiscais são excelentes. A minha escolha quase recaiu nesse setor. Tem um que "joga nas onze" e tem nome de craque de futebol, que desde menino vive entre nós. É um dos que simboliza a total dedicação à Nova Ipanema e seus habitantes. Ele conhece, um a um, todos os moradores. É lógico que ele vai ser o eleito de muita gente.

No edifício Henri Laurens, onde moro, quem escolher? Tem um que trabalha de noite na garagem que chama o elevador enquanto o morador estaciona o carro. Tem outro que lê e comenta comigo todas as minhas crônicas. Outro é excelente administrador. O jardineiro me presenteia com cocos colhidos no nosso jardim. Os porteiros são gentis e ligadíssimos na segurança dos moradores. Um deles não se intimidou com um corpulento de boné que foi entrando à noite pela portaria sem se identificar e dizer para onde ia. Depois, ele constatou que tinha barrado uma grande personalidade do mundo esportivo. E vamos por aí, numa seqüência de candidatos fortíssimos que, com certeza, hão de ser escolhidos por muitos dos meus vizinhos. Mas, vamos adiante.

Se morasse no edifício Auguste Rodin, escolheria o jardineiro de lá. Tenho uma profunda admiração pelo trabalho dele. Trata-se de um grande jardineiro que nasceu com a estatura necessária para brilhar na sua profissão e, assim, ficar ali, quase invisível, misturado às suas plantas. Em todos os edifícios, garanto-lhes, há gente desse quilate, integrada à comunidade, que ama o seu trabalho. Faça a sua escolha.

Se fosse tenista, já teria um candidato. Há uns três anos preparei um macarrão com camarão ao alho e óleo, lá no tênis, ajudado pela educação e competência de um funcionário de lá. Se você escolher qualquer um funcionário do tênis, decerto, não cometerá injustiça.

No Porrinhódromo, há um funcionário que, além de todos os predicados, tem um caráter que lhe permite, certas vezes, trabalhar com 20% da sua capacidade física, alegando que está na faixa dos 95%... Será outra belíssima escolha. Contudo, garanto, haverá quem vai escolher uma das meninas da cozinha.

Na administração, há um funcionário e uma funcionária que serão campeões de votos. Cuidando da sede esportiva e social, há outro fortíssimo candidato.

Quem sabe um funcionário que não nos seja visível? Há quem trabalhe por Nova Ipanema, por exemplo, na estação de tratamento de esgoto, que jamais tem contato com os condôminos.

Vocês não podem esquecer dos professores das atividades esportivas. Eles ajudaram a criar nossos filhos e, agora, preparam para o futuro os nossos netos. Merecem um adjetivo: fundamentais! E o que falar do nosso médico? Conosco há muitos e muitos anos anos. Ele encarna a figura do médico de família das pequenas cidades do interior: é amigo de todos os pacientes. O mesmo tenho a dizer sobre a nossa enfermeira. Eis aí dois grandes campeões de votos dos novaipanemenses.

Alguns funcionários se foram de vez e outros podem ainda voltar ao nosso convívio. Fica aqui consignada a saudade eterna da Neide, a massagista de muitos antigos moradores. Será que o Júlio da piscina, que ajudou a educar os nossos filhos, um dia vai voltar? Isso, só para citarmos duas saudades.

Como surgiu a idéia desta crônica

Esta crônica veio à luz por força de dois fatos geradores concomitantes. Primeiro, foi a sugestão do meu amigo Waldemar Fiszman, que me pediu que escrevesse para o INFORMANDO assuntos que dissessem respeito à nossa comunidade. O outro fato gerador foi a minha cunhada Lúcia que me perguntou quanto deveria pagar a um certo funcionário do Henri Laurens, por ter ele lavado a sua bicicleta. Disse-lhe, de pronto: serviço prestado por ele não tem dinheiro que pague...

A minha escolha

Sem cometer injustiça com os demais, de vez que já disse que todos são excelentes - e vocês conhecem a minha sinceridade -, a minha escolha recaiu sobre um auxiliar de portaria admitido pelo edifício Henri Laurens em 1º/7/1983. Sua conduta nesses 20 anos - estou escrevendo em 9/4/2003 - vai de ato heróico (isso, contarei pessoalmente a vocês) até ao não menos heróico dia-a-dia irrepreensível das rotinas de trabalho.

Trabalhador humilde na acepção mais franciscana da palavra, pai e chefe de família exemplar que, independentemente de qualquer honraria ou reconhecimento, trabalha anonimamente com afinco, desprezando conscientemente as possibilidades de ascensão a patamares superiores. Embora auxiliar de portaria, faz questão de trabalhar onde ele julgar que pode ser mais útil. Em seu semblante, não se vê puxa-saquismo ou quaisquer outros tipos de interesse, que não seja o de servir ao próximo. Se você está duvidando, é porque não o conhece.

A luta da Dona Terezinha

O meu escolhido tem berço de honradez. Além dele, conheço o caráter de seus três irmãos que trabalham em Nova Ipanema. Sem dúvida, trata-se de uma família que, muitíssimo bem estruturada, deu excelentes frutos. Vocês já vão lembrar deles. Os quatro irmãos formam um grupo musical de forró "Severino e seu Conjunto", que atua na nossa festa junina, a mais afamada festa da Barra da Tijuca.

Na carrocinha de pipoca e milho verde, que vemos à porta do Colégio Anglo-Americano, trabalham dois irmãos dele e um amigo de infância dos quatro, Valdomiro, que é funcionário do Henri Laurens. Vocês não imaginam como é importante a presença deles ali, convivendo com as nossas crianças à porta da escola. São essas as tais coisas invisíveis para os olhos, sobre as quais me referi na primeira linha desta crônica.

Pesquisando, descobri que a mãe do meu homenageado, Dona Terezinha, ficou viúva com treze crianças para alimentar: oito meninas e cinco meninos. O meu personagem é o penúltimo da prole, tinha três anos quando o pai faleceu. Luiz, o caçula, tinha seis meses. Dona Terezinha trabalhava 12 horas por dia na agricultura para dar o que comer a treze bocas. Passaram por momentos difíceis.

O que me impressiona não é, apenas, o fato de tê-los criado sozinha, mas por ter dado ao mundo treze pessoas de bem. Hoje, pesquisei, há testemunhos de que todos os seus filhos e filhas têm o reconhecimento e o bem querer de suas comunidades. Vide os quatro exemplos que temos em Nova Ipanema.

Quem é ele?

O meu abraço de reconhecimento vai para o meu Amigo José Herculano Gomes, filho do casal Pedro Herculano Gomes e Terezinha Silvino da Silva, que nasceu em 6/3/1960, no Sítio Salvador Gomes, Município de Jacaraú, próximo da Cidade de Rio Tinto, na Paraíba. Trata-se do marido da Maria José, pai da Tatiane, irmão do Severino, do Antônio e do Luiz, que são excelentes candidatos para serem o seu escolhido. Severino trabalhou na construção do Colégio Anglo-Americano de Nova Ipanema e continuou como seu funcionário - trabalha lá desde de 1979. Antônio está também entre nós desde 1979, a princípio no colégio, depois no Henri Laurens e, depois, voltou para Anglo-Americano, onde hoje é motorista do ônibus escolar. Luiz, que trabalha no edifício Marino Marini, já está por aqui desde 1986.

Lenita, João Carlos Filho, Carlos Eduardo, meus sogros e a minha cunhada Lúcia se unem a mim nesta crônica, para tornar meus votos de paz, saúde, felicidade e prosperidade ao nosso Zé, extensivos à Dona Teresinha, seus filhos, filhas, genros, noras, netos, netas, bisnetos e bisnetas.

Agora, caro leitor, é a sua vez. Escolha o seu funcionário, mas não precisa ser publicamente. Não estou defendendo uma pesquisa de opinião a respeito do assunto. Também, não se trata de dar ao seu escolhido uma gratificação ou um presente qualquer. Quando encontrar o seu escolhido ou escolhida, basta lhe apertar a mão e lhe dar um abraço de reconhecimento.

Esta crônica é uma homenagem a todos os funcionários e prestadores de serviços, internos e externos, que fazem de Nova Ipanema uma ilha de tranqüilidade, num mundo hoje tão conturbado.


Dona Terezinha


Severino (na sanfona) e Luiz (na zabumba)


Dona Terezinha, à porta de sua casa


Meu homenageado, José Herculano Gomes,
na companhia de sua mãe, Dona Terezinha


Da esquerda para a direita: José, em companhia
de seus irmãos Severino, Luiz e Antônio

Post Scriptum: no dia 25 de janeiro de 2008, Dona Terezinha Silvino da Silva, aos 78 anos, faleceu no Sítio Salvador Gomes, Município de Jacaraú, na Paraíba, deixando enlutados uma imensa família e muitos amigos, entre os quais, eu e minha família nos incluímos.

João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações - SP
Tel.: (55 - 21) 3325-1500, 3325-8641 e 9984-6846

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