Acompanhando o Mercado
O mercado de arte em tempos
de conflito - II
Depois do 11 de setembro de 2001, quando era iminente
uma retaliação pelo atentado terrorista à
Nova York, escrevi um artigo com o mesmo título deste.
À época, por sorte, malgrado algumas opiniões
contrárias, as minhas previsões acabaram se
cristalizando.
O que está naquele texto muda pouco
Em épocas de convulsões sociais, guerras e catástrofes, como agora, em fevereiro de 2003, diante da possibilidade de um embate envolvendo os Estados Unidos da América e o Iraque, a procura por determinados ativos, como o ouro, outros metais nobres, pedras preciosas, investimentos imobiliários e obras de arte são privilegiados e, com a procura, os preços de tais ativos tendem a subir.
O bicho nunca é tão feio quanto parece
Embora não seja nenhum analista internacional, sou de opinião que, em caso de conflito no Hemisfério Norte, mesmo com o mundo totalmente globalizado, não teremos aqui reflexos econômicos mais importantes do que, por exemplo, os ocasionados por problemas sociais crônicos já existentes.
Mesmo diante de uma hipotética terceira guerra mundial, o que se admite tão-somente para argumentar, acredito que seus ecos chegariam brandos por aqui. Afinal, da metade do Século XX para cá, sempre tivemos conflitos no outro hemisfério e nem nos damos conta disso. Desde os primórdios, esses conflitos, sempre setoriais, alimentaram a indústria bélica e serviram para testar a questionada hegemonia dos blocos de poder.
E o mercado de arte brasileiro?
Ao contrário do que se tem noticiado, as obras de arte no Brasil estão, ainda, com preços muito convidativos. Há artistas em quem vale à pena apostar. Entre eles, sempre surgem algumas novas revelações. Sem citar nomes, como é do meu feitio, lá fora há mercados que estão apostando em muitos de nossos artistas.
É certo que ninguém pode tomar decisões no olho do furacão, porém, uma vez assentada a poeira, é sempre o momento de se adquirir obras de arte. Acredito no que afirmo, mesmo porque, como foi dito, os preços estão muito convidativos.
A experiência dos meus vinte anos ininterruptos no mercado de arte me diz que, em quaisquer circunstâncias, quando se compra as melhores obras de arte de artistas plásticos importantes, a médio e longo prazo, não há riscos de se perder, como o comprova a história desse mercado.
Ainda sem citar nomes, mas sem medo de errar, diria que o preço de mercado das telas de determinados artistas com projeção nacional, em média, tem aumentado cerca de 10% ao ano, acima da valorização do dólar. Esse raciocínio de dolarização, passa pelo decurso de um certo tempo. Obviamente, se o dólar pular, da noite para o dia, de R$ 3,50 para R$ 7,00, decerto, não quer dizer que as obras de arte vão dobrar também da noite para o dia. Quem é do mercado não terá dificuldade em endossar o que estou afirmando.
Tenho para mim, deixando a sobredita valorização média de lado, que só deve investir neste mercado quem tem sensibilidade pela arte. Digo isso porque o mercado de arte não propicia lucros imediatos. O investidor que ambiciona lucros rápidos, pronta liquidez e, por via de conseqüência, riscos na mesma proporção, deve dar prioridade a outros ativos.
Resumo tudo isso na melhor definição que conheço sobre arte de coleção: "Preto no branco: arte catalogada é investimento seguro, rentável e de liquidez assumida. Claro, descartado o dividendo espiritual da beleza da vida capturada na janela da fantasia pelo dom divino do artista iluminado. Arte na parede não é ouro no cofre nem dólar na moita. É raio de luz, valor que não tem preço. E o que não tem preço é sempre um artigo barato. No mundo inteiro é assim: arte é bem-de-raiz, reserva de valor, resseguro de crise, arrimo de família, ficha cadastral. E, de sobremesa, prestígio social." - Joelmir Beting.
O bambu chinês
Contudo, os resultados no mercado de arte têm muito a ver com o que escrevi na crônica "Aos desistentes, o bambu chinês" , que está em "Crônicas do Cotidiano", na www.pitoresco.com/consultoria. Tudo na vida leva sempre um certo tempo de crescimento e maturação e com os lucros do mercado de arte não poderia ser diferente. No mercado de arte, não se compra hoje para ganhar amanhã. Há obras que valorizam em cinco anos, outras em dez ou mais anos.
Modus faciendi
Tenho dito, em diversas oportunidades, que uma coisa é decorar uma residência; outra, bem diferente, é atender o mesmo objetivo, mas levando em conta a possibilidade de, no futuro, recuperar o desembolso com algum lucro. O investimento começa por aí.
Com crise ou sem crise, para investir em obras de arte, não tendo qualquer experiência no mercado, há que se contratar um profissional capacitado, o qual tomará, junto com você, mas em seu nome, uma série de precauções, tanto na aquisição, quanto na conservação e, mormente, no acompanhamento da coleção - vale dizer, na substituição de quadros do acervo por outros melhores ou mais valiosos.
A figura do consultor é importante; não para escolher o que o cliente vai comprar, mas sim para lhe falar de procedência, autenticidade, qualidade, do preço justo, onde aquela obra tem mercado e onde tem maior liquidez.
Quadro bem comprado, independentemente de quem o assina - bem como de guerras e crises -, é mais fácil de revender tempos depois e também é um dos raros objetos dos quais se pode auferir lucro com a revenda.
Procuro sempre dissuadir as pessoas quando dizem: "Não compro quadro para vender, compro o que gosto e não me interessa a opinião dos outros". Concordo que se deva comprar só a pintura de que se gosta, seja qual for o seu valor, mas sempre em consonância com as normas do mercado de arte, pois um dia, por isto ou por aquilo, haverá de se procurar um novo dono para o quadro. Aí, nesse momento, a opinião dos outros sobre o quadro é muito importante. As pessoas, quando compram obras de arte, seja qual for o seu valor, nunca têm idéia de que um dia poderão ter de vendê-las.
João Carlos Lopes dos Santos
Autor do Manual do Mercado de Arte Júlio Louzada Publicações - SP
Tel.: (55 - 21) 3325-1500, 3325-8641 e 9984-6846
www.pitoresco.com/consultoria e www.consultarte.com
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