Acompanhando o Mercado

Marchand - uma definição simples e objetiva

                                              João Carlos Lopes dos Santos

Um acidente e duas interpretações

      Há definições que mais complicam do que elucidam. Outras nos espantam pela sua simplicidade.

     O meu amigo Paulo Victorino, o webmaster da Pitoresco, me contou que durante certo tempo analisou para uma empresa a evolução do seu sistema de segurança no trabalho. Passavam pelas mãos dele, para a tal análise, as fichas de acidentes com o relato de cada ocorrência por parte de um trabalhador, seguido das conclusões do médico.

      Numa delas, eis a anotação do trabalhador, simples, direta e objetiva: ‘Ele machucou o dedo mindinho’.

A seguir, o parecer médico: ‘Ferimento contuso no quinto quirodáctilo direito’.

Que vem a ser um marchand

     No Manual do Mercado de Arte, a folhas tantas, quando abordo a figura do marchand de tableaux (em bom português, comerciante de quadros), digo:

     ‘Para se tornar marchand ou se arvorar como tal, basta abrir uma galeria de arte ou - se conseguir - sair comprando, consignando e vendendo obras de arte. Ser marchand, evidentemente, não só é isso. Há outras atribuições além da de vender. Ele deve ser um agente, um promotor do mercado, na acepção mais ampla dessas palavras, e, principalmente, tem que estar preparado’.

Um tom professoral

     Mais adiante, continuo:

     ‘É uma profissão atípica, uma atividade mista, que envolve comércio e prestação de serviço, que, ainda hoje, não tem qualquer tipo de formação acadêmica específica, desconhecendo-se qualquer notícia sobre cursos intensivos ou algo parecido’.

     Depois, preocupado com a síntese, definiria marchand assim:

     ‘É o profissional que tem como atribuição escoar a produção artística, comprando, vendendo e fazendo intermediação de obras de arte, promovendo os artistas plásticos e assessorando os compradores em potencial’.

A sabedoria dos simples

     Outro dia, cheguei à conclusão que essa não é a melhor definição para marchand.

     Sempre tive como verdade absoluta de que a melhor sala de aulas fica aos pés de um ancião. Mas, nem sempre é assim...

     Nas minhas andanças pelas casas e paredes dos outros, mormente à noite e nos sábados, domingos e feriados, recebi uma aula de sapiência de um menino de tenra idade.

     Dez e pouco da noite de um domingo, desço pelo elevador de serviço de um 18º andar de um edifício, transportando um quadro. Ali pelo 14º andar o elevador para e entra um garoto de uns nove anos de idade, trajando, inequivocamente, um pijama. Tudo me levou a crer que seria o lance costumeiro de terem esquecido alguma coisa no carro e sobrou para o menino buscá-la na garagem...

     Ele entrou no elevador, olhou para o quadro, olhou para mim e perguntou:

     - Foi o senhor que pintou esse quadro?

     - Não. Eu sou marchand. Você sabe o que é um marchand? (Estava certo que não saberia...).

     - Sei, sim, respondeu ele, na ponta da língua: ‘Marchand é aquele que ajuda os pintores e colecionadores’.

     - Muito bem, é isso aí. E você, o que vai fazer na garagem? - perguntei, mudando de assunto.

     - Pegar o celular que o meu pai esqueceu no carro.

     A gente não aprende só com os experientes da terceira idade. Eu aprendi com um menino de uns nove anos, qual era a melhor definição, com o absoluto poder de síntese, da minha profissão:

Marchand é aquele que ajuda os pintores e colecionadores.

 

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